20/09/2009

P E C A D O ?

LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

Clavis Prophetarum, Padre Antônio Vieira


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Texto-fonte:
Obras Escolhidas, Livraria Sá da Costa,
Lisboa, 1953.
Edição eletrônica:
Richard Zenker





CLAVIS PROPHETARUM




«Parece, pois, justo que o Reino de Cristo, Senhor nosso, na terra, seja perfeitamente consumado antes da vinda do mesmo Senhor como Juiz. De sorte que disto se segue que, fundado nas profecias que ainda se não completaram e expondo-as literalmente, prognostique muitas cousas que hão-de acontecer na Igreja Militante, e conceba o Reino de Cristo, Senhor nosso, na terra tal qual pode convir ao mesmo Senhor, que há-de vir não como Redentor, mas como Juiz.


De novo no prefácio se louva a luz, a erudição, a enfática e energia de razões, a harmônica consonância, a extensão do espírito com que expõe literal e não misticamente o que as profecias anunciam sobre o futuro estado da Igreja, e termina com estes informes sobre o livro:


Divide-se este estupendo volume do Reino de Cristo Senhor nosso, consumado sobre a terra. em três livros, como o declara o seu mesmo Autor no princípio da sua obra: No 1.° trata da natureza e qualidade do Reino de Cristo, Senhor nosso; no 2.° da consumação do mesmo Reino sobre a terra; no 3.° do tempo em que se há-de consumar e o tempo que deve durar depois da consumação.






Segue-se o texto integral da tradução:







Duas imperfeições teológicas ouço que se imputam a este grande varão: uma sobre o pecado filosófico e outra a respeito dos sacrifícios da Lei antiga, que se hão-de restabelecer antes do fim do Mundo. Uma e outra explicarei em poucas palavras, a primeira neste parágrafo e a segunda explicarei nos seguintes.


No tratado da pregação universal do Evangelho, no segundo caderno do Autor, pág. 2, leio na margem as seguintes palavras:


«Estas opiniões acerca do pecado filosófico já em outro exemplar foram riscadas por causa do Decreto de Alexandre VIII, que as condenou muito depois que elas foram escritas pelo Autor.»


Com permissão, porém, do que notou a dita margem, digo que este tal imprudentemente se alucina, querendo inferir que a opinião do Padre Vieira, na qual defende o pecado puramente filosófico entre os bárbaros americanos, vulgarmente chamados Tapuias, dos quais a maior parte passa todo o decurso da sua vida em uma invencível ignorância de Deus, querendo inferir, digo, que esta opinião do Autor tem semelhança com a que foi condenada por Alexandre VIII, no, ano de I690.


Eis aqui, pois, a opinião condenada: o pecado filosófico ou moral é um ato que desconvem à natureza racional; o teológico, porém, e o mortal é a transgressão livre da divina Lei O filosófico, ainda que grave, naquele que tem ignorância de Deus, ou não cogita atualmente do mesmo Deus, é pecado grave, na verdade, mas não é ofensa feita a Deus, nem pecado mortal que faça apartar a sua amizade, nem digno de pena eterna. Esta, portanto, foi a opinião condenada.


Se bem se examinar, ver-se-á que Alexandre VIII condena a opinião que defende não ser ofensa feita a Deus, nem remover a sua amizade, nem digno de pena eterna o pecado, ainda que grave, cometido contra a razão por aquele que não tem conhecimento de Deus (não diz conhecimento invencível) ou que nada cogita atualmente do mesmo Deus.


E pelo contrário, defende o Padre Vieira que o pecado, ainda que grave, cometido contra a razão, por aquele que tem ignorância invencível de Deus, não é ofensa a Deus.


Ora quanto dista a asserção daquele que diz que o pecado feito por ignorância invencível de Deus, não é pecado grave contra Deus, nem desfaz a sua amizade, nem é digno de pena eterna, da do que afirma que não é pecado grave contra Deus, nem tira a sua amizade, nem é digno de pena eterna o delito feito por ignorância (não invencível) de Deus; quanto dista, digo, a asserção de um da do outro, tanto dista a proposição do Padre Antônio Vieira da condenada por Alexandre VIII.


Vejamos agora a diferença destas duas opiniões, para do mesmo modo podermos inferir a discordância que tem entre si a opinião do Padre Vieira da que foi condenada.


1.°—É pecado grave contra Deus e ofensa do mesmo Deus e faz apartar a sua amizade e é digno de pena eterna, quando qualquer delito é cometido por aquele que, não cogitando atualmente de Deus contudo implícita e virtualmente o reconhece ,pela mesma razão natural, que proíbe qualquer maldade.


2.°—Não é ofensa feita a Deus o pecado cometido por aquele que nunca teve conhecimento de Deus, antes do mesmo Deus sempre teve uma ignorância invencível.


A mesma repugnância que há entre estas proposições há também entre a opinião do Padre Antônio Vieira e a que foi condenada. Logo, sem motivo no exemplar que foi para Roma se riscou a proposição do Padre Antônio Vieira, como coincidente com a condenada, quando dela dista sumamente. Confirmo, portanto, a opinião antecedente com esta outra que tem entre si uma paridade irrefragável. E digo que imerecidamente se chamaria herética esta proposição: — Não peca contra a lei quem, ignorando-a invencivelmente, a quebranta. Não peca contra a lei quem, ignorando-a, a viola. Logo, sem razão nenhuma se chama condenada esta proposição do Autor: —Não peca contra Deus quem do mesmo Deus tem uma ignorância invencível — porque foi condenada esta outra: Não peca contra Deus quem o ignora. Pois pode muito bem ser que tenha de Deus uma ignorância vencível, que o não livra certamente do pecado.


Acresce ainda mais que, sendo assim, todo o II livro do Autor, que se funda na asserção do pecado filosófico cometido por aquele que tem ignorância invencível de Deus, deveria ser anulado. Logo que não foi, segue-se, portanto que inconseqüentemente se reprova a proposição e não todo o livro, ou inconseqüentemente se admite o livro segundo, e não a proposição.


Ninguém poderá, portanto duvidar da discordância que tem a proposição do Autor com a que foi condenada, mas sim tão somente escrupulizar se é verdadeira a proposição em que ele quer admitir entre muitos dos Americanos, por todo o decurso das suas vidas, uma invencível ignorância de Deus.


Que é verdadeira, prova ele consolidíssimas razões, e tão somente o poderá negar aquele, que dos Americanos quiser julgar da mesma sorte que julga dos Europeus, entre os quais de algum modo se dá a conhecer o verdadeiro Deus no mesmo ídolo que invocam, veneram, a quem sacrificam e em cuja presença suplicam vénia dos seus delitos. Quando, contudo, quisermos falar dos Tapuias americanos como verdadeira e realmente são, devemos afastar deles toda a espécie de deus e de Ídolos que os teólogos reconhecem em todos os homens geralmente, e substituir em seu lugar outras espécies muito diversas, como próprias e acomodadas à incomparável estupidez de que são possuídos. Porque muitos há que não só não conhecem o verdadeiro Deus, porém também não se ocupam com religião alguma, nem ainda falsa, como seja cultivando ídolos, invocando-os, sacrificando-lhes e pedindo-lhes vénia. Além do que, depois de um grande trabalho que tiveram os missionários em os catequizar, apenas escassamente entendem os mistérios da Fé santa. São tão estúpidos, que apenas muitos só podem contar até 3 e tudo o mais que excede a este número chamam eles muitos. E assim vivem sem saber nem poder dizer quantos anos têm, nem quantos dedos contêm suas,mãos, nem quantos os seus pés, e para poderem comunicar aos nossos confessores o número dos seus pecados, trazem um cordel, no qual dando tantos nós quantos são os pecados, o entregam deste modo ao confessor.


Além disto, observa o Autor em muitos destes Tapuias, entre os quais por muito tempo viveu, não só uma ignorância invencível de Deus, por todo o decurso das suas vidas, mas também ignorância de todo o Direito Natural. Pois a educação que dão os pais aos filhos, ainda na mais tenra idade, é induzi-los para os furtos, homicídios e tomarem vingança, e se nutrirem de carne humana, e a se exercitarem em tudo quanto é obscenidade.


E tão longe estão de serem punidos por estas suas maldades, que antes o são, se as deixam de cometer. Se, porém, algum, pelo mesmo lume da razão, vem no conhecimento que estes crimes são dissonantes ao Direito Natural e, contudo os puser em execução. então assevera o Autor que neste caso o delito deste bárbaro cometido contra a sua razão natural, tendo ele ignorância invencível de Deus, é pecado puramente filosófico, e não deve ser punido com pena eterna, nem é ofensa de Deus, não tendo ele conhecimento algum do mesmo Deus verdadeiro, nem ; ídolos, pois que está bem patente que, não poderá também ter religião alguma; e o mesmo acontecerá a qualquer europeu ou idólatra, que sem dúvida venera a alguma divindade.


Já tenho assaz provado quanto julgo ser bastante, para justificar o Autor e escusá-lo da opinião condenada que se lhe imputa, nem me devo mais demorar. E com isto finalmente concluo que a opinião condenada fala do pecado filosófico cometido por aquele que tem conhecimento de Deus e da sua Graça, o que impede que seja puramente filosófico, e é, pois teológico, porque o mesmo Deus verdadeiro sempre de algum modo brilha no mesmo lume da razão daqueles que algum tanto o reconhecem, ainda que implicitamente, de donde se segue que nestes repugna o pecado puramente filosófico, e não nos Tapuias, que: nada absolutamente cultivam, e por este mesmo título se vê que a proposição condenada não vem ao caso. Porém, a esse respeito, falarei mais a baixo.






Da segunda imperfeição teológica da obra, que trata dos sacrifícios da Lei antiga, que se hão-de restabelecer:






O parecer do Autor a este respeito é que na consumação da Igreja, ou no seu 3.° estado, quando todos abraçarem a Lei de Cristo, Senhor nosso, se hão-de restabelecer os sacrifícios da Lei antiga. É, pois, este parecer tão mal entendido por alguns, que por isto julgam indigna de ser publicada aquela admirável obra do Autor, que trata do Reino de Cristo, nosso Senhor, consumado na Terra.


Eu, porém, lendo-a uma e outra vez e certamente antes com o ânimo de reprovar do que aprovar, no tratado De templo Ezechielis, no qual copiosamente disputa a respeito dos sacrifícios que se hão-de restabelecer, nada absolutamente acho digno de censura, mas antes a moderação e limitação com que fala o Autor. A este respeito dá a entender que estas mesmas cousas de que fala são dignas de admiração e louvor, como constará mais plenamente na minha Sinopse pertencente a este trabalho.


O que para provar com suma eficácia supõe o Autor, com autoridade de todos os teólogos, primeiramente, que os sacrifícios, sacramentos da Lei antiga, se revogaram; em segundo lugar, que estes se instituíram por multiplicados fins, os quais são o culto de Deus, e para que os Hebreus se afastassem da idolatria; para prefigurarem os Sacramentos da Lei nova o sacrifício cruento da Redenção e o incruento da Eucaristia, e para que por meio desses sacrifícios de ovelhas e novilhos aprendessem os Hebreus a consagrar a Deus as paixões das suas almas, em terceiro lugar, supõe que estes fins são de tal sorte separáveis, que um possa existir sem outro.


Estabelecidos estes fins, assevera o Autor que, por dispensação de Deus ou da Igreja, se hão-de restabelecer na consumação da mesma Igreja os sacrifícios da Lei antiga, não como prefigurativos dos sacramentos e sacrifícios da nova Lei, pois que estes já estão presentes, porém retido o outro fim, ou como demonstrativos do sacrifício e Sacramentos da mesma nova Lei, ou como moralmente significativos da imolação interior da nossa alma, e tudo isto para que os Hebreus (dos quais dez tribos estão dispersas por todo o Mundo, e ainda se ignora aonde estejam) sendo tenacíssimos aos seus ritos, mais facilmente se reduzam à Fé de Cristo na consumação da sua Igreja.


E prova este restabelecimento de tantos modos já com textos da Sagrada Escritura, já com excepcionais autoridades dos Santos Padres, e com tão poderosas razões, que apenas se pode negar, e de nenhuma sorte censurar, exceto se houver de censurar também a dispensação da Igreja nascente.


Certamente consta que a Lei mosaica que proibia a comida sanguinolenta e sufocada, se conservou na maior, parte das províncias da Cristandade por dispensa da Igreja, nos primeiros três séculos do seu estado. Consta mais que a lei da circuncisão foi revogada por S. Pedro e outros Apóstolos, e que S. Paulo, apesar de seguir a mesma doutrina e ter impugnado em Antioquia a sua necessidade a favor dos Gentios, contudo, por causas urgentes, circuncidara a S. Timóteo, nascido de pai ,gentio. E além disto, consta também que na Igreja grega, e entre os Abissínios, ainda se conserva no seu vigor a permissão de receber-se a circuncisão depois do batismo, não como necessária para a salvação, porém sim como caráter de antiquíssima nobreza, derivada de Abraão e Salomão.


Depois, o uso destas cerimônias legais tirado pelos Apóstolos, como desnecessário, assim mesmo conservou o seu vigor em muitas províncias convertidas à Fé, e agora mesmo está em uso na Igreja grega; por que razão na perfeitíssima consumação da Igreja, quando não só todas as gentes, porém também todos os Hebreus dispersos por toda a Terra houverem de abraçar a Fé de Cristo, Senhor nosso, não poderá a Igreja, ao menos no Templo hierosolomitano que se há-de reedificar, permitir o uso destes sacrifícios? não como necessários ou prefigurativos, porém como moralmente significativos da imolação interior da nossa alma, significada por meio das vítimas exteriormente imoladas, ou como demonstrativos dos Sacramentos da nova Lei que prefiguravam, e certamente só por este altíssimo fim, para que os Hebreus mais facilmente se convertam à Fé de Cristo, e deles e de todas as gentes, tanto as convertidas, como as que se houverem de converter, se venha a fazer um só rebanho e um só pastor.


Na verdade, é tanta a moderação com que o Autor fala neste uso dos legais, que, podendo os estender a várias províncias e reinos, fundado na claríssima e excelentíssima exposição dos Santos Padres e nas muitas razões tiradas da dispensa da Igreja, contudo ele põe limites no seu dizer e só afirma que este uso se há-de restabelecer unicamente no Templo hierosolomitano.


Ora, quem fala desta sorte, sem ser por defeito dos divinos Textos, porque alega muitos que clarissimamente mostram que este uso se há-de restabelecer; quem assim restringe o seu dizer, sem para isto ser obrigado pela contrariedade dos Santos Padres, porque, não tendo nenhum contra si, refere em seu favor muitos e claríssimos textos tirados deles; quem desta sorte modera a sua proposição, sem ser por falta de razões, porque alega inumeráveis, fundado nas histórias eclesiásticas, que referem quanto os Sumos Pontífices têm dispensado com muitas nações acerca dos ritos dos Hebreus; quem, digo, assim patenteia o seu parecer, a sua sentença, ignoro eu que seja digno de censura ou que possa haver cousa alguma repreensível que se possa objetar contra semelhante sentença.


É verdade que pode parecer nova a alguém esta sentença, e portanto ser digna de censura; porém prova-se, pelo contrário, primeiramente que não pode parecer novo um parecer fundado nas Sagradas Escrituras e nos Santos Padres, senão ,para aqueles a quem do mesmo modo estas mesmas cousas parecem novas; em segundo lugar, se toda a novidade se deve desterrar, devem também ser desterrados todos os antiqüíssimos pareceres, excetuando-se os primeiros a quem eles se opuseram; em terceiro lugar, ouçamos a S. Antônino, 3 p. História, n.0 33, § 2, que diz de S. Tomás o seguinte: «No ler era inventor de novos artigos, e de tal sorte produzia nas determinações as suas razões, que ninguém, ouvindo-o, poderia duvidar de o ter Deus ilustrado com raios de nova luz.»


Eis aqui pois quantas novidades traz S. Antonino de S. Tomás: era inventor ,de novos artigos e de novas conclusões; produzia novas razões, parecia ilustrado com raios de nova luz; tinha novo modo de definir. E não podemos duvidar que muitos determinando-se a cavar nos tesouros da Sagrada Escritura e dos Santos Padres, passam em silêncio cousas que outros com mais profundidade e meditando-as deram à luz.






LIVRO I






Este livro, que está perfeitíssimo, consta de II cadernos divididos em 12 capítulos e trata do poder de Cristo, Senhor nosso, como Rei.






SINOPSE






No I capítulo prova com muitas razões a existência do Reino de Cristo, Senhor nosso: 1.°) porque já desde o principio do Mundo foi figurado; 2.°) porque foi prenunciado nos Salmos; 3.°) porque foi vaticinado pelos Profetas; 4.°) porque foi declarado no Novo Testamento.


No II, prova que Cristo, Senhor nosso, como homem não só tem um reino no Céu, como também na Terra. Dá e explica aquelas palavras do Senhor:«Que o seu reino não é deste Mundo»,—dizendo que Cristo, Senhor nosso, disse que não era Rei deste Mundo, porque não viera com aquela ostentação e majestade dos reis do Mundo.


No III, afirma que, suposto que o Reino de Cristo, Senhor nosso, seja no tempo posterior às quatro monarquias, pois que começou no dia em que nasceu; portanto pela ordem sucessiva do tempo seja o 5.° Império do Mundo, contudo, na ordem da dignidade, é superior a todos os reis e reinos da Terra.


No IV, defende que o Reino de Cristo, Senhor nosso, é não só espiritual, mas também temporal; e o pensava assim pelas Escrituras e Santos Padres, como, também, pela razão da união apostólica; e porque seria grande absurdo o julgar que Cristo, Senhor nosso, não teve tanto domínio quanto teve Adão. E passando depois a desfazer o argumento tirado do Papa, como vigário de Jesus Cristo, ter direito de propriedade em todos os reinos do Mundo, se acaso Cristo, Senhor nosso, tivesse semelhante reino temporal, diz que, assim como Cristo, Senhor nosso, não deu ao seu Vigário todo o poder espiritual que ele tinha, pois que o Pontífice não pode instituir sacramentos, nem santificar almas sem sacramentos, assim muito menos lhe devia confiar todo o poder temporal que ele tinha, pois que o Pontífice não pode instituir sacramentos, nem santificar almas sem sacramentos, assim muito menos lhe devia confiar todo o poder temporal que ele tinha, servindo este muito de embaraço ao poder espiritual. Finalmente, conclui o mesmo capítulo IV, dizendo que o Reino de Cristo, Senhor nosso, não é só espiritual, mas também temporal.


No V, examina os títulos pelos quais Cristo, Senhor nosso, tomou para si o Reino espiritual e temporal. Diz que pela razãrança, como herdeiro de Adão inocente e não pecador, pelo título de eleição, quando antes da sua vinda foi eleito pelos povos e desejado por Rei, o que tudo prova com admirável engenho.

No VI, examina quando começará o Reino de Cristo, Senhor nosso; e, expondo os pareceres dos que dizem ter começado no dia em que foi concebido ou no dia em que foi crucificado, decide admiravelmente que o Reino de Cristo, Senhor nosso, pelo título da união,apostólica, de direito hereditário e de doação e por ser filho de Adão inocente e de eleição por todas as gentes, teve princípio no dia em que foi concebido; com os títulos, porém, de redenção de merecimentos, de aquisição e de vitória, do dia em que foi crucificado.


No VII, examina se Cristo, Senhor nosso, foi legítimo e próprio Rei dos Judeus. Parece, pois, que não, pela razão de que a Virgem Santíssima não gozou de direito algum de rainha, e, portanto Cristo, Senhor nosso, em quanto seu Filho, não teve direito algum para ser Rei dos Judeus. Ao que responde com suma agudeza que, tendo Deus prometido a David e a sua Família não só o reino de Israel, como que o Messias nasceria da sua família, segue-se que, descendendo a Virgem Santíssima da família de David, e nascendo dela o mesmo Messias, o reino de Israel pertencia a Cristo, Senhor nosso, tanto pela natural descendência de David, como pela eleição divina, que prometera ao Messias o reino de Israel.


No VIII, discute excelentemente as qualidades do Reino temporal e espiritual de Cristo, Senhor nosso. Decide admiravelmente que as qualidades do Reino espiritual consistem na suprema dignidade sacerdotal, porquanto não só se ofereceu a si mesmo, por si mesmo, como por nós, fundando um Reino espiritual, e instituindo leis e meios próprios ao culto divino e à salvação da alma. Acrescenta de mais que este poder espiritual de Cristo, Senhor nosso, chama-se real, porque, como todo o poder temporal que excede a todos os mais se chama real, do mesmo modo como o poder espiritual de Cristo, Senhor nosso, excede, sem comparação, a todos os outros poderes, por isso se chama real, porque não só é poder de dar, sacrificar e santificar algum povo, o que tudo compete a qualquer sacerdote, mas também é poder de instituir república espiritual, sacramentos, leis, prêmio para remunerar o bem que se obra, e pena para castigar os delitos ou maldades, pelos quais se poderá corromper a mesma república espiritual. Diz ao depois que as qualidades do Reino temporal consistem em ter Cristo, Senhor nosso, um direto e absoluto domínio sobre todos os reinos da Terra, determinando-os e livrando-os como e quando quer, e que o domínio de Cristo, Senhor nosso, sendo somente inferior ao do Padre Eterno, excede sempre a todos os mais.


No IX, examina se Cristo, Senhor nosso, exerceu no Mundo um e outro poder espiritual e temporal. É de fé que Ele exerceu o espiritual, porque, diz, santificou ao Baptista, chamou aos magos e aos pastores, repeliu os demônios e ofereceu-se em sacrifício a seu eterno Pai. Do temporal diz que, ainda que não o exerceu com aquele fasto com que o costumam exercer os reis do Mundo, porque quis ensinar a humildade e misturá-la com o poder régio, contudo exerceu-o sem este fasto, usando do juramento como seu, secando a figueira, lançando do templo os mercadores, destruindo as mesas dos banqueiros , permitindo que os reis o adorassem e que os povos o aclamassem Rei. Acrescenta que muitas vezes Cristo, Senhor nosso, exercera um e outro poder, espiritual e temporal, como se vê do caso da adúltera, a qual absolvendo, mostra o poder espiritual e, perdoando-lhe a pena de ser apedrejada, estabelecida por Moisés, mostra o poder temporal.


No X, pergunta se Cristo, Senhor nosso, exerce no Céu o poder espiritual. Diz que sim, porque exerce o ofício sacerdotal, oferecendo-se a si mesmo a seu Pai por mãos de qualquer sacerdote, porque, pela boca do sacerdote, diz que oferece o seu corpo. Torna a rogar por nós e assiste a todos os pastores das almas. Demonstra, além disso, excelentemente, que Cristo, Senhor nosso, exerce no Céu o seu poder espiritual, não só sobre todos os infiéis, iluminando-os, ajudando-os, substituindo-lhes ministros espirituais, mas também sobre todos os homens em geral, tanto fiéis como infiéis, reina e exerce o seu poder espiritual. Acrescenta, além disto, que Ele o exerce também sobre todos os condenados como juiz espiritual. Conclui, dizendo que Cristo, Senhor nosso, exerce o seu poder espiritual sobre os condenados como membros podres, sobre os infiéis como membros mortificados, e sobre os justos como membros reunidos.


Na XI, pergunta se Cristo, Senhor nosso, exerce no Céu o poder de Rei temporal. Diz que sim, porque Cristo governa o Mundo, tanto pelo que toca às cousas espirituais, como temporais, do mesmo modo que o Verbo Divino, com a diferença somente de que o poder de governar do Verbo Divino é inato a si mesmo, o de Cristo, porém, como homem, é um poder participativo. Por isto diz a Escritura que o Pai deu todo o juízo ao Filho, tanto de julgar como de governar o Mundo, e, portanto Cristo, Senhor nosso, muda reis e repúblicas, e por meio dos anjos e dos homens exerce no Céu o poder do Reino temporal.


No XII, pergunta curiosamente se Cristo, Senhor nosso, há-de governar visivelmente por espaço de 1.000 anos e que há-de haver duas ressurreições; que na primeira ressuscitarão todos os justos, que cheios de bens temporais reinarão com Cristo, Senhor nosso. Mas O P.e Vieira o refuta otimamente, porque seria cousa indecente que Cristo, Senhor nosso, deixasse o Céu para reinar na Terra com abundância de bens temporais, e que nem é necessário que para fazer guerra ao Anticristo e destruí-lo, que Ele desça à Terra a reinar e a pelejar com ele.


Eis o que se contém no I Livro, que é admirável, erudito e razoável.






Da perfeita consumação do Reino de Cristo, Senhor nosso, na Terra.






Livro II






Este II Livro é sumamente imperfeito, porquanto não tem senão o primeiro capítulo, e dos sete cadernos falta o segundo. Se os mais tratados que não estão ordenados por capítulos pertencem ao II ou III Livros, só pelo contexto da matéria se poderá reconhecer.






SINOPSE






Nesta Sinopse julguei não dever proceder pelos capítulos, porque, exceto o I, faltam todos os mais; porque, se bem todos os tratados tenham seu título, contudo faltam todos os capítulos. Mas devemo-nos regular pelos cadernos do mesmo, suposto falta o II.


Diz, portanto, no I.° caderno que, tendo explicado no I Livro o poder e domínio de Cristo, Senhor nosso, como Rei, é justo que neste II Livro exponha as pessoas acerca das quais Cristo, Senhor nosso, exerce na Terra este poder. Ora, tendo só a Igreja Militante o Império e o Reino espiritual de Cristo, Senhor nosso, na Terra, porque a Igreja Triunfante não é o seu Reino na Terra, mas sim no Céu, e consistindo a sua perfeitíssima consumação não na Fé, porém na união de Deus, não na Esperança, porque nesta nada resta que esperar, porém no amor beatífico, segue-se que ele fala tão somente da Igreja Militante, que é o Reino de Cristo, Senhor nosso, na Terra.


Suposto, portanto, que o Reino espiritual de Cristo, Senhor nosso, seja na Terra não só a comunidade dos Fiéis, que se chama Igreja Militante perfeita, formada, atual, enquanto fundada na fé, esperança e caridade, como também a comunidade de todos os homens que estão fora da Igreja que se chama Igreja Militante, informe, potencial e imperfeita; pergunta em que consiste a consumação e perfeição do Reino de Cristo, Senhor nosso, na Terra, ou da Igreja Militante ou imperfeita, prometida por Deus nas Sagradas Páginas, para que com toda a certeza se faça um só rebanho e um só pastor?


É incrível quanto este admirável Autor excede a si mesmo, para assim dizer, a fim de provar a sua conclusão: —que o Reino de Cristo, Senhor nosso, então será consumado e perfeito, quando todos os homens, ou judeus ou infiéis, abraçarem a Fé de Cristo, Senhor nosso, e segundo a Lei antiga e nova se formar um só rebanho e um só pastor.


Do segundo caderno nada me corre dizer, porque falta. Contudo, pelo que pude coligir do 3.°, 4.°, 5.°, 6.° 7.°, parece-me que a intenção do Autor é provar, fundado em muitos Doutores, Santos Padres, figuras e textos, que ainda que haja hoje na Terra muitos infiéis que são como uma parte informe da Igreja Militante, contudo todos absolutamente se hão-de converter e passar para a parte da Igreja Militante, formada e aperfeiçoada pela Fé, pela Lei de Cristo, Senhor nosso, e que nesta conversão geral de todos os homens consiste a perfeita consumação do Reino de Cristo, Senhor nosso, sobre a Terra ou da Igreja Militante. Não me posso demorar em referir as engenhosíssimas e muito especiais reflexões que ele forma sobre os sagrados textos, profecias e figuras, para provar o seu intento e como para pôr à vista a veracidade da sua proposição.






Tratado da santidade do último estado da Igreja e de que todos os homens neste tempo hão de ser justos e se hão-de salvar






SINOPSE






Este tratado consta de 3 cadernos. Primeiramente diz que ele dividirá este tratado em 3 pontos, que vêm a ser: se neste tempo haverá pecados, se todos serão justos, e se todos se salvarão.


No I caderno prova que no último estado da Igreja ou na perfeitíssima consumação do Reino de Cristo, Senhor nosso, não haverá pecado algum, segundo o que diz Isaías, não se ouvirá falar na Terra de iniqüidade alguma, o que não se tendo ainda completado em algum estado da Igreja, se há-de completar no terceiro estado dela. Depois, prova também pela profecia do Arcanjo Gabriel feita a Daniel que o pecado achará fim e que a maldade será riscada do Mundo. Logo, não se tendo ainda completado esta profecia, há-de-se completar no último estado da Igreja, e por isso acrescenta ainda o Arcanjo Gabriel — para se cumprir a profecia e se ungir o Santo dos Santos —sobre as quais palavras, diz o Autor, será ungido o Santo dos Santos com a terceira e última unção , a qual como representada nas três unções de David, já nós distinguimos no cap. 2.° deste livro, tratando do Reino de Cristo sobre a Terra.


Confirma o seu dito com o Salmo XCV, que é todo a respeito das conversões dos povos: Toda a Terra se comove na sua presença, porque o Senhor reinou, porque estabeleceu o orbe da Terra de sorte que se não moverá. Eis aqui, diz o Autor, que Cristo, Senhor nosso, reinará então perfeitissimamente sobre a Terra, quando o Mundo ficar livre de todo o pecado. Traz também todo o texto do Apocalipse, que ele interpreta com admirável engenho.


Depois disto, pergunta de que modo se extinguirão todos os pecados? Responde: primeiro pela conversão de todos os infiéis; segundo, pela morte antecipada de todos os pecadores que se não quiseram converter.


No II caderno, pergunta se no Reino de Cristo perfeitissimamente consumado na Terra, serão todos justos? Responde que sim, porque, tirada a culpa de necessidade, há-de só reinar a graça. Expõe depois o capítulo LX de Isaías, no qual, depois destas palavras: — Já se não ouvirá falar de violência na tua terra — acrescenta imediatamente estas:—Todo o teu povo será um povo de justos—as quais palavras, se concordarmos com o texto de Isaías e outras profecias, devem aplicar-se à Igreja Militante.


O Autor continua no mesmo assunto no II caderno, em que ele pergunta se então todos se salvarão? Deixou contudo este ponto por acabar, suposto que do definido pelo Autor no I.° e 2.° ponto se siga evidentemente que todos se salvarão.






Tratado da Paz do Messias






SINOPSE






Contém este tratado três cadernos, no I dos quais, antes de decidir se as profecias a respeito do estado do Messias estão já completas, diz que, se estivermos pela experiência da guerra que tem havido por todo o século, parecem não estar ainda completas; e, depois de mostrar o erro dos Anabatistas, em que caiu antes destes o mesmo Tertuliano, os quais negam ser lícita a guerra, o que é contra o Direito Natural, que manda cada um defender-se como pode, traz diversas interpretações. Primeira é que as profecias falam da paz que reina entre os Bem-aventurados, a qual ele não admite.. A outra é que falam de paz espiritual, que também não admite. A 3.a é que falam da paz da Igreja e que neste tempo se completarão as profecias, o que destrói com muitos argumentos. A 4.a é que falam da paz que houve no Império Romano tão somente no tempo de Augusto, a qual ele refuta, tanto porque não foi de modo algum uma paz segura, como porque foi limitada só a este império; e a paz prometida não foi antes do Messias e da sua vinda, como foi a de Augusto. A 5.a é que, depois da vinda de Cristo, Senhor nosso, a paz é muito maior, porque as guerras são menores do que dantes, a qual ele também reprova, tanto porque é muito duvidoso se as guerras foram maiores antes do que depois da vinda de Jesus Cristo, como porque, se as guerras e os instrumentos bélicos de que usamos, se compararem com aqueles de que usaram os Antigos, facilmente se pode supor que são mais sanguinolentas as guerras de hoje do que as anteriores a Cristo, Senhor nosso. A 6.a é que, se os Cristãos observarem a Lei de Cristo, haverá maior paz entre eles. Refuta esta interpretação, porque não concorda com os textos que afirmam que as nações não tomarão armas contra nações, que a Terra será isenta de guerras. A 7.a é que, quando Cristo, Senhor nosso, promulgou a sua Lei, que toda é de paz, deu paz; reprova, porque se não promete lei de paz, porém sim paz perfeitíssima.


Finalmente, no II caderno, pág. 6, diz que a paz perfeitíssima prometida pelos Profetas ainda se não completou, porém, que se há-de completar no último estado da Igreja, isto é, no Reino de Cristo, Senhor nosso, consumado na Terra.


Prova pelo que diz S.to Agostinho — ainda não vimos o texto completo —: Levando as guerras até os fins do Mundo. E suposto seja verdade que a vinda de Cristo, Senhor nosso, aumentará a paz, porque entre os príncipes cristãos se guardarão com mais fidelidade os tratados de paz firmados com juramentos, do que entre os Infiéis, e ainda que muitos infiéis convertendo-se à Fé, tenham deposto o bárbaro costume de se comerem e pelejarem uns com os outros contudo ainda se não completou a paz geral de todo o Mundo, que há-de ser tão segura, que qualquer poderá descansar sem susto e temor de guerra.


Primeiramente, porque esta paz, como diz Isaías, está prometida à pregação do Evangelho; logo, que se o Evangelho ainda não está espalhado por todo o Mundo, não está também ainda completa a paz prometida. Segundo, porque não se há-de consumar o Reino de Cristo, Senhor nosso, na Terra, senão quando todo o Mundo se converter à Fé e se unir perfeitissimamente a Cristo, Senhor nosso; logo, não havendo ainda a paz prometida, há-de ser muito mais viva a mesma, com a sua luz infundirá um veemente desejo, e sem esta perfeitíssima sujeição, fé e obediência para com Cristo, Senhor nosso, não se há-de ainda conceder a paz prometida, e só se completará quando todo o Mundo se resolver a seguir inteiramente a Cristo, Senhor nosso. Refere a este assunto muitos textos, expostos literalmente e com admirável engenho.


No III caderno, desfazendo este argumento—que parece incrível que só a Fé seja capaz de conseguir esta perfeita paz—responde mostrando ele neste II Livro que a Fé deste 3.° estado da Igreja é amor à paz. Além de que diz Isaías que o Espírito Santo fará todos os seus filhos instruídos pelo Senhor, e depois conduzirá uma grande abundância de paz — e porque finalmente então haverá um só coração e uma só alma e todos viverão na graça do Senhor.


No mesmo III caderno suscita esta objeção: A paz é um dos principais sinais da vinda do Messias; logo que esta não está ainda completa, ainda não chegou também o Messias. Responde engenhosamente que os sinais da vinda do Messias, uns são antecedentes, e estes se haviam de cumprir antes da sua vinda, conforme o texto que diz que o Messias não viria até que se não tirasse o cetro de Judá—o que na verdade aconteceu, porque então apareceu ele, quando o cetro de Judá já tinha passado ao poder de Herodes; outros são concomitantes, como a sua santidade, pobreza, sua paixão e pregação; outros subseqüentes, que se não haviam de verificar e completar senão depois da sua ascensão ao Céu, como a pregação evangélica por todo o Mundo e a paz geral. Por isso diz David que Cristo, Senhor nosso, depois que se assentasse à direita de Deus Padre, poria a seus pés todos os seus inimigos.


Continua a mostrar a paz prometida por Deus e diz que assim como na arca de Noé, que foi a figura da Igreja, os leões e os lobos formaram aliança e paz com os cordeiros e ovelhas, assim no 3.° estado da Igreja ou na última consumação do Reino de Cristo, Senhor nosso, sobre a Terra, os homens que forem opostos entre si em leis, ritos e costumes, gozarão de uma paz seguríssima e firmíssima.






Tratado da pregação universal do Evangelho Último estado da Igreja e consumação do Reino de Cristo, Senhor nosso






Deste tratado não há capítulo algum, exceto um que não está enumerado, pelo que, para maior inteligência e clareza, disporei a Sinopse pela série dos dez cadernos.






SINOPSE






No I e II cadernos examina se o Evangelho tem sido pregado por todo o Mundo. Pela parte afirmativa traz para prova o Apóstolo, dizendo aos Romanos: A vossa Fé será levada por todo o Mundo — e o mesmo afirma aos Colossenses; e pela parte negativa, que ele segue, traz muitos argumentos e com curiosa erudição discorre excelentemente pelos I7 séculos da Igreja, citando os templos em que o Evangelho foi recebido em vários reinos do Mundo, o que prova que ele não foi publicado por todo o Mundo no tempo dos Apóstolos. Eis aqui a razão por que os intérpretes de S. Paulo explicaram o texto — de todo o Mundo —entendendo o mundo romano e outros o mundo então habitado e conhecido.


Depois disto, o Autor demora-se muito em expor o texto: Para toda a Terra saiu o som das suas vozes — e com admirável e engenhosa agudeza de espírito diz que uma cousa é sair e outra chegar. Concede que a voz dos Apóstolos tenha saído para todo o Mundo, porém, nega o ter chegado a todas as terras. Do mesmo modo que (diz) se saírem do porto de Lisboa duas naus, uma para o Brasil, outra para Goa, que é verdade terem ambas saído do porto ao mesmo tempo, mas que é falso o terem chegado ambas ao mesmo tempo, porque a que foi para o Brasil chegou primeiro.


Persuade, porém, que o Evangelho se há-de pregar por todo o Mundo por muitos textos da Sagrada Escritura, que dizem claramente que o Evangelho se há-de pregar por todo o Mundo. Logo, se em todo o Mundo se há-de pregar, a voz dos Apóstolos, apesar de ter saído para todo o Mundo, ainda não chegou a todo o Mundo.


Finalmente, na 5.a questão do II caderno expõe, com a mesma agudeza de engenho, os diversos modos da pregação evangélica. A um chama mudo, que vêm a ser as mesmas criaturas irracionais, as quais, se se considerarem, são bastantes para que os Gentios entendam a unidade de Deus; seriam além disto bastantes para também perceberem a Trindade das, Pessoas e a Encarnação do Verbo, se não estivessem cegos pelos seus pecados e pelos seus doutores, os quais como que prendem no cárcere a verdade, segundo a expressão do Apóstolo aos Romanos: Prendem a verdade de Deus na injustiça.


Outro modo de pregação evangélica são as vozes e a fama. Tudo isto trata o Autor com esquisita erudição no I e II cadernos do tratado.


No III caderno examina o Autor com grande esforço esta muito árdua questão: Se aqueles que não crêem no Evangelho, porque não o ouviram, devem ser condenados? Porque, sendo certo que tanto aqueles que ouviram o Evangelho se hão-de salvar, como os que o ouviram e não obedeceram se hão-de perder, deve-se determinar, diz ele, se aqueles que não obedeceram, porque não o ouviram, se condenarão ao Inferno para sempre.


Defende o Autor: primeiro, que em muitos bárbaros americanos se dá o pecado puramente filosófico e não o teológico, enquanto ele parece precisamente contra a razão natural, e não contra Deus, pois que padecem uma invencível ignorância de Deus. Segundo, afirma que se,dá também em muitos bárbaros invencível ignorância do Direito Natural, porque muitos têm o furto como uma cousa sumamente gloriosa, e por isso se aplicam a ele desde meninos, nutrem-se da carne dos seus inimigos, e de mais, comem os seus ,próprios filhos e cometem outras obscenidades, sem que se lhes ensine o contrário, antes pela sua omissão são repreendidos e castigados.


Um e outro assunto prova o Autor com a autoridade dos historiadores os mais fiéis que estiveram entre os Tapuias, e que foram encarregados de os civilizar; os quais têm tão rombo entendimento, que muitos não são capazes de aprender mais que três números. Por esta razão diz o Autor: se os teólogos da Europa (que negam ser possível a ignorância de Deus e do Direito Natural totalmente invencível) praticassem com estes bárbaros, cederiam da sua opinião.


Suposto, portanto, pelo Autor, naqueles bárbaros, o pecado paramente filosófico, porque padecem invencível ignorância de Deus, examina se, porque cometem ou cometeram o pecado mortal puramente filosófico, deverão ser castigados com a pena eterna.


Nega. E, continuando largamente a mesma matéria no 3.° caderno, na I.a e 2.a página. do 4.° o prova desta maneira: Todo o motivo por que se impõe a pena eterna ao pecado mortal, é porque ele é ofensa de um Deus infinito; dando-se, porém, muitos bárbaros que não ofendem este Deus infinito, porque ignoram invencivelmente a sua existência, segue-se que não são dignos da pena eterna, mas só sim devem ser castigados com uma pena temporal e arbitrária.


Pelo que deve haver algum lugar onde se devem punir aqueles que cometem o pecado puramente filosófico. E porque não admire a novidade da opinião, pergunta em que lugar se há-de punir aquele bárbaro que morreu sem batismo, só com o pecado venial?


Não deve ser no Purgatório, porque este lugar é só para aqueles que morreram em graça e que hão-de gozar da presença de Deus. Não no Inferno, porque este lugar é destinado aos que morreram em atual pecado mortal teológico; não no Limbo, porque este estado é para aqueles que morrem só com o pecado original, sem pecado venial. Portanto, assim como para aqueles que morreram sem batismo com um pecado venial, está determinado o lugar próprio em que devem ser punidos com a pena dos sentidos, assim para aqueles que morrem com o pecado mortal puramente filosófico, deve-se destinar um lugar próprio, que não seja nem o Limbo nem o Purgatório, nem o Inferno, onde devem ser punidos.


Considerando estas cousas , nunca acabo de admirar como alguém se atreva a riscar deste tratado a opinião do pecado puramente filosófico, como condenado por Alexandre VIII. Primeiramente, pergunto eu se são equivalentes estas duas proposições: o pecado filosófico, por mais grave que seja naquele que ignora invencivelmente a existência de Deus, não é ofensa de Deus nem merece uma pena eterna; o pecado filosófico, por mais grave que seja naquele que ignora Deus, não é ofensa de Deus nem digno de pena eterna? Por certo que não. Logo, sem razão alguma foi riscada do tratado do Autor a doutrina do pecado filosófico naquele que ignora invencivelmente a existência de Deus.


Demais, se se extinguir a doutrina do pecado filosófico, dever-se-ia também extinguir quase todo este tratado da universal pregação do Evangelho, visto estar fundado no pecado filosófico. Porque é cousa muito singular neste Autor, ver a coerência que têm as cousas que diz com as que há-de dizer, de modo que as derradeiras estão fundadas sobre as primeiras e se ligam umas às outras. Nada, portanto se pode tirar deste, que se não perca todo o tratado. Logo, para que nada se destrua do que ele tem feito por muitos cadernos cheios de erudição e engenho, fundado unicamente no pecado filosófico, nada se deve tirar dele.


Da mesma sorte digo que, de negar nos Cristãos e nos Idólatras o pecado filosófico, não se segue que se deva também negar nos Bárbaros americanos. E a razão é porque, nos Cristãos e nos Idólatras, não há invencível ignorância de Deus, porque adoram alguma cousa. E ainda que os Idólatras errem no seu culto, contudo na mesma luz natural da razão que lhes proíbe alguma cousa, sempre resplandece, ao menos implicitamente, um Deus a quem adoram, no Bárbaro americano, porém, que nada absolutamente adora, não existe na sua mesma razão Deus algum, pois que: padece uma ignorância invencível da existência de um Deus, qualquer que seja; logo, o pecado dos Cristãos e dos Idólatras contra a razão natural não é puramente filosófico, mas é também teológico; e, pelo contrário, o pecado dos Bárbaros, que não adoram divindade alguma, cometido contra a razão natural, é puramente filosófico; dos quais e nos quais o Autor defende o pecado puramente filosófico.


No IV caderno pergunta o Autor se Deus ministra a todos os bárbaros adultos os meios suficientes para a sua salvação? Afirma com S. Tomás, a quem de boamente concede que os exemplos referidos por ele — de S. Pedro enviado a Cornélio, S. Paulo aos Macedônios —, provam que Deus manda pregadores àquele que faz o que está na sua parte; contudo, querendo mostrar que estes exemplos não vêm ao caso, diz que de dois casos raríssimos não se pode inferir universalmente que Deus conceda a graça da pregação àqueles que fazem o que está na sua parte.


Depois suscita esta grande dúvida e pergunta que meios tiveram os Americanos em 1.300 anos depois da pregação do Apóstolo S. Tomé (pois que este foi o tempo que mediou entre a pregação do Apóstolo e a entrada dos Europeus na América) que meios, digo, tiveram para conseguirem a sua salvação? Porque eles não tiveram nem um nem outro meio, isto é, sem a agudeza do engenho pela qual pudessem . conhecer a Deus naturalmente, pelas cousas criadas, e nem pregadores que os tirassem da sua estupidez; logo, não tiveram meio algum de salvação eterna.


Dizer, porém, diz o Padre Vieira, que Deus deu o seu conhecimento a todos os adultos antes da morte, para que, pecando mortalmente, pudesse condená-los, é cousa duríssima e contrária à piedade de Deus, que Ele condenasse a uns homens tão estúpidos e que não tiveram pregadores por espaço de 1.300 anos. Eis aqui os apertos em que se viram aqueles que negam o pecado puramente filosófico; porque condenam a todos estes. Pelo contrário, admitindo-se o pecado puramente filosófico e outro lugar além do Céu e do Inferno em que padeçam a pena temporal aqueles bárbaros que têm invencível ignorância de Deus e que pecam gravemente contra a razão natural, nada se diz nem se segue que pareça cruel, nem contra a piedade de Deus.


Para, portanto, desfazer esta dúvida, que ao Autor causa suma admiração, diz que Deus, não providenciando, providenciou àqueles bárbaros. E para provar isto, supõe que em Deus, além da ciência absoluta, se dá também a condicionada, pela qual Ele vê o que fariam aqueles bárbaros, se se lhes desse um entendimento agudo ou se se lhes mandassem pregadores. Conhecendo, porém, que eles haviam de abusar tanto de um como de outro meio, cometendo o pecado mortal teológico, e que seriam condenados à pena eterna; e que, negando-lhes um e outro meio, não seriam punidos com a pena eterna, porém com a temporal, tão somente depois da sua morte, Deus, que é tão cheio de piedade, negando-lhes primeiro outro meio de salvação, não os providenciando, providenciou-os.


Medite, portanto, o leitor que, abolindo-se a doutrina do pecado filosófico, se deverá também abolir quase todo o tratado, pois tudo o que se afirma no IV caderno, se funda no pecado filosófico.


Acrescenta o Autor das utilidades que daí se tiram, que vêm a ser: que Deus, não providenciando, providenciou os dois meios de salvação àqueles bárbaros, isto é, não lhes dando nem agudeza de engenho, nem pregadores por onde conhecessem a Deus.


Diz que daí se seguem duas utilidades: Primeira, que, ignorando invencivelmente a Deus, nunca poderão cometer o pecado mortal teológico; segunda, que, cometendo só o pecado mortal filosófico, estão livres da pena eterna.


Confirma primeiramente com S. Paulo e S. Timóteo, os quais, como diz S. Lucas, querendo pregar a Fé de Deus na Ásia, foram proibidos pelo Espírito Santo; porque, como explica Beda, sabia que os Asiáticos haviam de desprezar a palavra de Deus, a qual cousa, não sendo providência, é providência de Deus, enquanto ela livrará da pena eterna dos sentidos a todos aqueles que invencivelmente O ignoram, o que certamente não sucederia, se acaso O conhecessem. E sabendo Ele que os Asiáticos haviam de resistir à sua Lei, se acaso a conhecessem, e a Ele mesmo, não providenciando, os providenciou, proibindo que se lhes fosse pregar.


Prova, em segundo lugar, com o Salmo XVII, que fala do Padre Eterno, onde se lê das salvações de Seu Filho Jesus Cristo. Não diz da salvação, mas sim das salvações; porque são dois os modos de salvação: o primeiro é perfeito, providenciando a Fé e bons costumes com que se adquira a vida eterna; e outro é imperfeito, admitindo que vivam numa infidelidade inculpável, e salve ou livre da pena eterna dos sentidos aqueles que morrem em invencível ignorância de Deus.


Acrescenta mais do Salmo XXXV estas palavras: Salvarás, Senhor, os homens e os jumentos. Chama homens aos fiéis que crêem e obram bem e que se salvam pelas boas obras, e jumentos aos infiéis, que estão entre os homens e os brutos, porque, vivendo na sua invencível ignorância de Deus, se salvam da pena eterna dos sentidos.


Confirma, em terceiro lugar, pelo preceito que impôs Cristo, Senhor nosso, a S. Paulo, logo depois da sua conversão: Apressa-te—disse — e sai já de Jerusalém, porque não receberão o testemunho das minhas palavras. Eis aqui Cristo, Senhor nosso, prevendo que os Judeus não se haviam de converter; por isso mandou a S. Paulo que saísse de entre eles e os deixasse na sua ignorância, para que fossem menos maus, não ouvindo a S. Paulo, e não se fizessem dignos da pena eterna.


No mesmo caderno, junto do fim, pág. 8 até pág. 9, examina os meios pelos quais se pode alcançar a conversão de todo o Mundo à Fé de Cristo: primeiro, pela eficácia da pregação, isto é, dando tão grande eficácia às palavras dos pregadores, que os Infiéis não lhes poderão resistir; segundo, pelos milagres; terceiro, pelas inspirações interiores, sem auxílio dos homens, e isto o prova elegantissimamente por causa da impossibilidade moral de irem os pregadores a todas as regiões dos Infiéis.


Depois, continua a declarar os instrumentos de que Deus há-de usar para a conversão de todo o Mundo. Primeiramente, diz que o melhor instrumento será o mesmo Cristo, do qual se lêem no Salmo II estas palavras: Eu, porém, fui estabelecido por Ele Rei, a fim de intimar os seus preceitos. Não diz — diz o Autor— Rei pregador, porém sim Rei que prega; porque Cristo, Senhor nosso, nunca se absteve de pregar. Em segundo lugar, diz que serão os homens santos, porque, se Cristo, Senhor nosso, fundou o seu Reinado por meio de homens santos, com muito mais razão se servirá deles para aperfeiçoá-lo. Em terceiro lugar, diz que será o socorro dos príncipes seculares. Porque — diz o Autor— assim como as almas não serão governadas pelos bispos, estando separadas do corpo, mas sim unidas a ele, assim também entre os príncipes seculares e os eclesiásticos deve haver esta união, e por isso Deus, no Velho Testamento, dividiu entre os dois irmãos, isto é, Moisés e Aarão, o poder secular e sacerdotal, para que entendêssemos que se deviam unir entre si no amor fraternal. Traz para este fim muitas histórias, e o que diz Isaías no cap. XLIX, falando sobre a Igreja: Serão os reis os teus curadores, e as rainhas as tuas amas.


No V caderno, pergunta se antes do fim do Mundo todos serão cristãos e, refutando o que diz o Padre Soares,—que, ainda que a Igreja se dilatará por todo o Mundo, nega contudo que todos se converterão — o Autor afirma que totalmente hão-de ser cristãos, porque a Sagrada Escritura diz que todas as gentes, pátrias e famílias de nações o adorarão—isto é, a Jesus Cristo, acrescentando a mesma :Escritura que até cada um dos indivíduos o há-de adorar. Logo, por conseqüência, deve vir tempo em que se convertam não só as nações, pátrias e famílias, mas ainda mesmo cada um dos homens


No VI caderno, trata do tempo em que de uma vez ou dos tempos em que por partes se há-de completar a conversão de todo o Mundo à Fé, e diz que todos os intérpretes querem que esta conversão de todo o Mundo à Fé não se completará senão depois da morte do Anticristo por Elias, que converterá os Judeus, e por Henoc, que converterá aos Gentios, segundo o que disse Cristo, Senhor nosso, por S. Marcos, cap. IX: Quando vier Elias restituirá todas as cousas. O Autor, porém, segue outro parecer, ensinando que não há-de haver uma só conversão, porém que são duas as conversões gerais de todo o Mundo: a primeira, pelos sucessores dos Apóstolos, antes da morte e destruição do Anticristo, e o prova: primeiro, porque o fim por que Cristo, Senhor nosso mandou aos Apóstolos, foi a conversão de todo o Mundo, porque diz: Pregai o Evangelho a todas as criaturas; logo, não se tendo ainda alcançado este fim, algum dia se alcançará. Segundo, porque, sendo certíssimo tanto que antes do dia de juízo todo o Mundo se deve converter à Fé, como que, desde a morte do Anticristo até o dia de juízo, não se hão-de passar mais que 45 dias, é impossível que em tão breve tempo todos os homens geralmente se possam converter à Fé de Cristo por meio de dois homens, Henoc e Elias logo, deve preceder a vinda do Anticristo outra conversão geral de todo o Mundo. Terceiro, porque, se antes da vinda do Anticristo todo o Mundo não fosse cristão, o Anticristo não seria o Anticristo porque Anticristo é aquele que se opõe aos Cristãos, logo, antes da vinda do Anticristo, todo o Mundo deve ser cristão. Confirma, além disto, o seu dito pelas referidas palavras de Cristo, que não diz: Elias, quando vier, converterá tudo, porém, sim, —restituirá tudo—que quer dizer que aqueles que por causa de tormentos e enganos do Anticristo se tiverem afastado da Fé, serão restituídos a ela; logo, se os restituir à Fé, segue-se que já tinham sido antes cristãos.


Ajunta muitas dificuldades desta conversões. As principais são: que a conversão precedente à vinda do Anticristo será feita pelos sucessores dos Apóstolos sem mudança de hábito, que terá por fim a conversão de todos aqueles que, ou por malícia ou por erro invencível, não tiverem abraçado a Fé de Cristo, Senhor nosso; que esta conversão, antecedente à vinda do Anticristo, começou no nascimento de Cristo, Senhor nosso, e, pelo contrário, a subseqüente à vinda do Anticristo principiará por Henoc na Lei da Natureza e por Elias na Lei Escrita, e começará outra vez por eles e durará tão somente 45 dias; que o fim desta conversão é reduzir à Fé tão somente aqueles que pelos enganos e tormentos do Anticristo tiverem apostatado da Fé de Cristo, Senhor nosso; que Henoc e Elias hão-de pregar, vestidos de saco. Depois disto examina se neste tempo tão somente se completará o oráculo de Cristo, Senhor nosso: —Haverá um só rebanho e um só pastor. Afirma, porém, contra a opinião de quase todos os intérpretes: porque Cristo, Senhor nosso, diz: —Tenho outras ovelhas e é justo que eu as guie, e ouvirão a minha voz e se fará (não diz—e se fez um só rebanho e um só pastor, porém, se há-de fazer) um só rebanho... Segue-se que ainda não está completo este oráculo de Jesus Cristo.


Daí, passando o Autor ao tempo e à ordem por que se há de formar este rebanho ou congregação de ovelhas, diz que os Hebreus se hão-de unir com os Hebreus e os Gentios com os Gentios, e ambos se unirão com os mais. Prova, além disto, a geral conversão de todos os homens a Cristo, Senhor nosso, e à sua Fé, tanto pelo cap. XXXI de Jeremias, que diz: todos me conhecerão, desde o mais pequeno até , ao maior, como pelo cap. XI, de Isaías: Será cheia a Terra do conhecimento do Senhor, assim como as águas do mar cobrirão a mesma Terra, ou como outros: Bem assim como as águas cobrem o mar. E segundo diz o profeta Habacuc: A terra se encherá, assim como as águas cobrem o mar, para que todos conheçam a glória do Senhor. Sobre as quais palavras diz o Autor engenhosamente que, assim como as águas podem cobrir o mar, o conhecimento do Senhor há-de ser tão grande, que inundará o Mundo, do mesmo modo que o dilúvio inundou a Terra.


Depois disto, nota a diferença que há entre o dilúvio de Noé e este, cuja figura foi a de Noé; porque, assim como o dilúvio de Noé inundou a Terra, assim também a inundará o conhecimento do Senhor, com a diferença somente de que aquele a inundou para destruí-la, este porém é para vivificá-la com o dilúvio do batismo.


No IX caderno, supõe ser tradição antiga, derivada de Adão e tida por certa entre os mesmos Antigos, que o Mundo não há-de exceder do espaço de 6.000 anos; porque dizem que, se todo o Mundo se completou em seis dias, os dias porém na presença de Deus são 1.000 anos; por conseqüência não há-de durar mais de 6.000 anos; de sorte que os dois primeiros 1.000 anos são da Lei da Natureza, os dois intermédios são da Lei Escrita e os dois últimos da Lei da Graça. Todavia o Autor deixou por acabar todo o IX caderno—o do tempo em que se há-de acabar o Mundo.


No I, examina se os homens viverão mais tempo naquele em que se consumar na Terra o Reino de Cristo, Senhor nosso. Afirma que sim, fundado na profecia de Isaías, cap. LXV, onde se lêem as seguintes palavras: «Não se verá mais ali menino que viva poucos dias, nem velho que não cumpra o tempo da sua vida; porquanto aquele que for menino morrerá de 1OO anos e o pecador de 1OO anos será maldito.» Da mesma sorte diz Isaías: «Edificarão casas e as habitarão; plantarão vinhas e comerão o seu fruto.»


Sendo, portanto, certo por todos os intérpretes que estas palavras se devem entender a respeito da Lei da Graça, sendo também certo que, desde que Cristo, Senhor nosso, subiu ao Céu, ninguém viu menino nem velho que cumprisse os seus dias e anos, e acontecendo, de ordinário, que aquele que fabrica não habita a casa que construiu nem come o fruto das árvores que plantou, segue-se necessariamente que esta profecia se completará um dia. quando o Reino de Cristo, Senhor nosso, se consumar sobre a Terra, e tanto mais pelo que se lê no Apocalipse a respeito de Cristo, Senhor nosso: Eis aqui faço tudo novo, isto é, renovando as idades passadas.


Será, porém, perfeitamente consumado o Reino de Cristo, Senhor nosso? Com a última evidência, diz o Autor, e acrescenta que tem tudo provado, quando todo o Mundo abraçar a Fé de Cristo, Senhor nosso, e quando houver um só rebanho e um só pastor.


Diz também que este Reino durará perfeitamente completo por espaço de 1.000 anos, porque está escrito: Viverão e reinarão com Cristo pelo espaço, de 1.000 anos; e no Reino de Cristo, Senhor nosso perfeitamente consumado, ou quando todos forem cristãos, os homens viverão muitos anos, ainda que todos não vivam os mesmos, porque alguns morrerão de 100 anos, e nesta idade se chamarão ainda meninos, outros de duzentos, outros de muitos séculos, outros finalmente, que tiveram uma vida mais santa, viverão 1.000 anos, para combaterem com o Anticristo e triunfarem dele.


Dificuldades dos sacrifícios e cerimônias legais.


Objeta o Autor que, sendo sentença constante ser a Lei antiga não só morta, mas ainda mortificada, e que jamais deve ser de novo suscitada, segue-se, portanto que a visão de Ezequiel a respeito dos sacrifícios legais não pode ser literalmente exposta sem o perigo da Fé.


Para desfazer, porém, a sua objeção, supõe, em primeiro lugar, que o antigo sacerdócio e as cerimônias do antigo sacrifício foram revogadas. Em segundo lugar, que os antigos sacrifícios foram instituídos, não só para o culto de Deus e para que os Hebreus fossem retraídos da idolatria, como também para significar o futuro sacrifício de Cristo, Senhor nosso; o que suposto— diz o Autor — não sendo os sacrifícios legais intrinsecamente maus, porque, sendo-o, nunca seriam lícitos pela dispensação de Deus ou da Igreja, bem poderão segunda vez ser restituídos.


Prova o Autor a primeira parte da sua proposição por meio da dispensação de Deus e servindo-se do Salmo L, em que se distinguem três tempos e três gêneros de sacrifícios: O primeiro tempo é o da antiga Sinagoga; o segundo é o da Igreja presente; e o terceiro é o da Igreja futura, quando a Sinagoga se unir à Igreja e entregar-se totalmente à mesma Fé, pois por meio destas palavras: Livrai-me dos sangues, ó Deus, ó Deus da minha salvação! se indica o tempo da Igreja passada ou da Sinagoga, e os sacrifícios cruentos desta mesma Igreja, dos quais David se desejava livrar como de sacrifícios que não conferiam graças.


E por meio destas outras palavras: Porque, se tu tivesses desejado um sacrifício, eu não teria faltado a to oferecer, mas tu não terás por agradável os holocaustos, se indica o tempo e a Igreja presente, no qual cessarão os antigos sacrifícios da Sinagoga. E ultimamente por meio destas: Então é que tu receberás com agrado os sacrifícios de Justiça, as oblações e os holocaustos, então é que te oferecerão os novilhos sobre o teu altar, se indica o tempo e a Igreja futura, no qual se há-de reedificar o templo de Jerusalém e se hão-de restabelecer as oblações, etc., não como significativas do sacrifício incruento ou da eucaristia como futura, porém sim do sacrifício eucarístico como presente. Portanto, diz o Autor, entendendo literalmente a expressão de David, segue-se que o Templo se há-de restabelecer no tempo da Igreja futura, em que os Judeus e todas as gentes se hão-de reduzir à Fé de Cristo, Senhor nosso.


Prova a segunda parte por meio da dispensação da Igreja , dizendo primeiramente que todo o legislador pode ser também dispensador nas suas mesmas leis e que, portanto, não sendo o uso das cerimônias legais da antiga Lei proibidas por lei divina, mas meramente pela Igreja, poderá dispensar e permitir que se restabeleçam as mesmas cerimônias no seu 3.o, estado.


Depois disto, passa a expor as causas mais graves por que a Igreja há-de dispensar estes ritos no seu 3.o estado. A principal é a inata tenacidade dos Judeus para com os seus votos; porque, diz ele, se os Apóstolos, por causa desta tenacidade dos Judeus, dispensaram às duas tribos, no tempo da primitiva Igreja, o poderem conservar alguns dos seus ritos, como é constante (disse duas tribos, porque se ignora por onde se espalharam as demais), segue-se, portanto que poderá a Igreja ainda com maior razão dispensar os Judeus que se houverem de converter no fim do Mundo, o poderem usar os seus ritos, ao menos no templo de Jerusalém, não para alcançarem por meio deles a salvação, como diz Beda, porém para preencherem as profecias daqueles sacramentos.


Logo, satisfazendo aos argumentos do Padre Soares, mostra, primeiramente, que a necessidade, utilidade, piedade e outras cousas que o mesmo Padre Soares julga suficientes para a dispensa da lei, estas mesmas podem concorrer para que a Igreja conceda aos Judeus que se hão-de converter o uso dos seus ritos no templo de Jerusalém.


Em segundo lugar, traz aquele memorável exemplo dos ritos mistos-arábicos, permitidos na Espanha, em alguns templos, pelo Pontífice, por cuja permissão os Árabes abraçaram a Igreja Romana, como se vê nas catedrais toletana e granatense, que têm capelas públicas, nas quais se celebram as missas com o rito chamado moçarábico ou misto-arábico.


Em terceiro lugar, ajunta com esquisita erudição todos os ritos permitidos pela Sé Apostólica aos Gregos, Rutenos e aos outros cismáticos, para que deste modo pudéssemos unir as Igrejas Orientais à Romana. Permite, diz ele, aos seus sacerdotes o sacramento do matrimônio, o poderem consagrar em pão fermentado e comungar em ambas as espécies, o uso da carne aos sábados, ainda na Quaresma, e a observância dos mesmos sábados juntamente com os domingos. E todas estas cousas lhes concede, não para conformá-las com a observância judaica, porém para que se confundissem os hereges simoníacos nascidos no Oriente, que diziam não ter Deus criado o Mundo, porque descansava ao sábado, como adverte o Padre Turriano (Livro VII) nos Cânones dos Apóstolos. Além disto a circuncisão, que é o principal sacramento dos Judeus, aí se permite aos Cristãos, não como culto religioso, porém como caráter ou sinal e brasão da antiga nobreza derivada de Abraão e Salomão, do mesmo modo com que se esculpem nos sepulcros os brasões das famílias iguais da sua nobreza, como notou Guilherme Reginaldo no seu livro contra Calvino, Livro II, cap. 9, dizendo que os Abexins cristãos batizam os infantes e logo os circuncidam, em sinal da sua antiga nobreza, sem respeito algum ao merecimento e confiança judaica. Logo, diz o Autor, se por benignidade da Sé Apostólica se uniram em alguns reinos os domingos com os sábados e o batismo com a circuncisão, por fim honesto e ainda político, por que razão não será então licito à Igreja Nova o permitir que se una o sacrifício da Eucaristia com as cerimônias naturalmente legais?


Outras muitas provas refere o autor, as quais passo em silêncio.


Termina aqui a tradução manuscrita do Códice da Biblioteca Nacional adiante inserto. Damos a seguir a tradução por nós próprios tentada, da parte que o tradutor baiano omitiu:


Prossegue, ponderando a utilidade máxima de tal permissão e em sua confirmação aduz o recente testemunho do que em 1594 se passou com a Lituânia. Com efeito, quando, por ordem de Clemente VIII, reuniu o sínodo para trazer os Rutenos à Fé Católica, foram nele apresentados os pedidos dos seus bispos respeitantes tanto à Fé como aos ritos, em cuja observância são tenazes. Respondeu-lhes o Núncio antes que os pedidos fossem levados a Roma, que, assim como a Igreja Romana é inexorável em tudo o que respeita à integridade da Fé, assim tem tolerado dispensas naquilo que é determinado pelo direito humano e eclesiástico. Portanto, poderá a Igreja permitir alguns ritos aos Judeus, que tão dificilmente consentem em abandonar os ritos dos seus maiores.


Em segundo lugar, afirma poder dizer-se que Ezequiel pretende que os sacrifícios legais se hão-de restabelecer, como significativos não de Cristo futuro senão de Cristo presente, do mesmo modo que á Igreja diz de S. João Batista que não profetizou Cristo, Senhor nosso, como havendo de nascer, senão que o mostrou já existente. Conseqüentemente, os sacrifícios que então puderam ser permitidos, não serão prefigurativos de futuro sacrifício eucarístico, mas indicativos da presença do mesmo sacrifício que primeiro eles tinham prefigurado.


Estabelece a este propósito uma comparação com uma representação teatral a que na nossa Casa professa assistiu em Roma, no entrudo de 1650: Em baixo, o templo de Salomão, com os seus sacerdotes sacrificando no rito nacional; em cima, o pão eucarístico, a que era dirigida a adoração dos Fiéis.


Eis que nada melhor ilustra — diz o Autor — a concepção do templo de Ezequiel e seus sacrifícios legais; tal como no teatro romano estavam presentes a figura e o figurado, a Eucaristia e os muitos sacrifícios que figuravam, assim no templo de Ezequiel serão simultâneos os sacrifícios legais que prefiguram a Eucaristia, a par do que a mostra. Também das Sagradas Páginas aduz, ao propósito, texto engenhosamente apropriado.


Diz, em terceiro lugar, que os sacrifícios legais indicados por Ezequiel, rejeitado todo o significado figurativo, poderão ser admitidos como demonstrativos. Tiveram eles, na verdade, segundo Santo Agostinho, além da significação figurativa, um sentido moral, porquanto pela imolação das vítimas aprendiam os Hebreus a imolar a Deus o corpo e a alma (como ensina o Apóstolo); e com agudeza diz Orígenes: «Temos dentro de nós várias vítimas que imolamos: se vences a soberba do corpo, imolas a Deus um vitelo; se a ira, um carneiro, se a libididez, um bode; se lúbricos arrebatamentos dos pensamentos, uma pomba ou uma rola.»


Que, em verdade, não foi o sacrifício material a principal finalidade dos sacrifícios, admiravelmente o prova com o Salmo L.:«Porque, se tivesses querido um sacrifício, de qualquer modo eu o teria oferecido; não te deleitarás com holocaustos; 0 sacrifício a Deus é o espírito atribulado; não desprezarás, meu Deus, o coração contrito e humilhado»


Eis em Deus—diz o Autor—duas vontades que parecem opostas: não quer a carne do animal que se sacrifica, quer o coração do homem, que é o que no sacrifício do animal é sacrificado. O mesmo se exprime no Salmo XLIX: «Porventura hei-de comer carne de touros e beber sangue de bodes? Imola a Deus o sacrifício do louvor»


O mesmo se lê em Isaías: «Não ofereças mais sacrifícios vãos; abomino o incenso .... Lavai-vos, sede limpos ... deixai de cometer perversidades; aprendei a bem-fazer» Eis pois que Deus não quer o sacrifício puramente material, senão o moral por ele significado. Conseqüentemente, com toda a probabilidade se pode afirmar que, no templo de Ezequiel, haverá os sacrifícios materiais significativos do sacrifício moral que Deus ordena.


Desenvolve isto eloqüentemente, advertindo que Deus ensina os homens por meio de símbolos exteriores; assim mandou a Oseas que tomasse como mulher uma meretriz infame que lhe desse filhos, para deste símbolo compreenderem os Hebreus a injúria feita a Deus; e mandou a Isaias que caminhasse nu pelas praças, para que por sua nudez fosse entendida a nudez espiritual do Egito e da Etiópia; e isto desenvolve em outros exemplos, como o das parábolas evangélicas de que Cristo se serviu para ensinar o povo. É, pois muito provável que os antigos sacrifícios e cerimônias, que foram como parábolas por que se exprimia a vontade divina, muitos dos quais os Judeus não entenderam, de novo se hão-de estabelecer, não só para que os Judeus, que se hão-de converter, atinjam a sua significação, como também para que se convertam.


É, na verdade, vulgar, diz o insigne Autor, instruir o militar ou o nauta por instrumentos apropriados a um e a outro; assim também, para que, na derradeira conversão do Mundo, os Hebreus se instruam na Fé Cristã, nada mais adequado do que o uso dos sacrifícios legais, a par do uso do sacrifício evangélico que moralmente indicaram.


Confirma São Gregório com um bem claro dito e feito, como se lê no Livro IX, Registri Epistolarum: perguntado por Augustino, primeiro bispo dos Ingleses, como lhe cumpriria proceder com eles para dos ritos profanos os chamar a Deus, escreve o santo: Esforça-te por que não destruam os templos, mas somente os ídolos, a fim de que mais facilmente concorram aos lugares costumados, aí adorando a Deus, para que não mais imolem animais ao Diabo; mantém-nos segundo o seu uso em louvor de Deus , e ao Dador de tudo refiram as graças em sociedade, de modo que, enquanto se manifestem os prazeres próprios da vida exterior, na vida íntima outros possam ser permitidos. Assim Deus se deu a conhecer o povo israelita no Egito, mas aqueles sacrifícios que costumava prestar ao Diabo reservou-os para Si próprio, mandando-lhes imolar animais em seu sacrifício; até certo ponto o alterando, dele abandonavam e retinham alguma coisa, e posto que fossem os mesmos animais que costumavam oferecer, contudo, imolando-os a Deus e não a Ídolos, já não eram os mesmos sacrifícios.»


Isto escreveu São Gregório, o qual, aproveitando o próprio exemplo de Deus, inventou um modo pelo qual os povos, tenazmente aferrados aos seus ritos, em parte os conservassem, em parte os perdessem e, mudando o uso e o culto dos sacrifícios, não fosse defraudada a alegria que deles recebiam.


Assim também, diz o Autor, mudando o culto dos sacrifícios antigos e a fé judaica, 0 povo que deve ser afastado do uso das suas cerimônias legais, não será privado da alegria que delas recebia, ingênitas e inveteradas como eram.


Tratado sobre se é lícito perscrutar os tempos das coisas futuras e delas assentar alguma coisa.


Este caderno parece ser único e nada tem que pertença ao Livro III, porque apresenta o titulo do I Capitulo. Como. portanto, o livro primeiro e segundo têm seu primeiro capitulo, deve este pertencer ao III Livro. Isto ainda porque, além disso, o Autor diz no I Capítulo: «Parece-me ver no limiar deste livro...» Portanto, como o Livro I e II tenham seus princípios, segue-se que é neste capítulo que começa o






LIVRO III






Toda a dificuldade consiste em saber se os tratados Da Conversão do Mundo, Da paz do Messias Do templo de Ezequiel, pertencem ao Livro III, porque, no final deste caderno, diz o Autor: tudo isto cumprirá demonstrar no seu lugar... Não —diz está demonstrado. Conseqüentemente, se tudo depois deste caderno deve ser demonstrado, devem aqueles tratados ser colocados depois dele.


Quis notar isto e daqui se deve concluir que, por mais que quem quer que seja aplique seu engenho, é muito difícil saber se os ditos tratados pertencem ao II ou ao III Livro.






SINOPSE






Examina o Autor no Capítulo I, além do qual outro não há, se é lícito procurar saber em que tempo se realizarão as coisas profetizadas e assentar qualquer coisa sobre tais questões, e nega-o com razões persuasivas: I) Porque Cristo, Senhor nosso, diz: «Não vos pertence conhecer o tempo nem o momento que o Pai estabeleceu em seu poder» texto que ilustra com a autoridade dos Santos Padres. 2) Porque, se a cronologia dos tempos pretéritos é tão incerta entre os Autores, que dificilmente um concorda com o outro, pois que da criação do Mundo à Encarnação do Verbo afirmam uns terem decorrido cinco mil anos, outros seis, outros sete mil, muito mais incerta é a cronologia do tempo futuro. 3, Porque, se os Autores discordam acerca do tempo do Dilúvio, do fim das Monarquias c da duração do Templo, que acordo se pode esperar na determinação do tempo futuro? 4) Porque se na História Sagrada os meses e os anos são referidos pelas suas próprias designações, não sucede assim nas profecias, nas quais apenas encontramos figuras e enigmas, como se lê no Gênesis, em que sete bois gordos e sete espigas cheias, depois de sete bois magros e sete espigas secas, significam sete anos de fertilidade e sete anos de esterilidade. E quem, na verdade, se Deus o não houvesse revelado, teria entendido que os sete bois e as sete espigas queriam dizer anos? Portanto, só muito tenuemente das profecias se pode precisar o tempo futuro. 5) Porque nada mais óbvio na Sagrada Escritura do que o tempo representado por horas, dias, semanas, anos e séculos, e com tudo isto nada mais obscuro, pois freqüentemente a hora não significa hora, nem o dia dia. nem os anos anos, como o Autor o mostra com textos dela extraídos. Portanto, é grande temeridade procurar nos textos Sagrados e precisar mais ou menos quando será consumado na terra, com a máxima perfeição, o Reino de Cristo, Senhor nosso.


Para o Autor poder tudo isto resolver sem qualquer dúvida, expõe pouco a pouco o seu pensamento, dizendo I) Que, quando Deus faz qualquer revelação e revela ao mesmo tempo quando ela se há-de cumprir, então com certeza pode ser prognosticado tanto o acontecimento futuro como o tempo em que se realizará, como se deixa ver na própria ressurreição de Cristo, Senhor nosso, revelada como devendo dar-se ao terceiro dia. 2) Que, se Deus alguma coisa revela e simultaneamente o tempo, não por dias e anos, mas por circunstancias e sinais, então sobre sinais e circunstâncias se pode prognosticar o tempo futuro da coisa revelada, como acontece no advento do Messias, que só devia surgir depois que o cetro da Judéia houvesse sido transferido a outra nação, ou seja a Herodes, que não era hebreu. 3) Que, se Deus revela alguma coisa futura em tempo não determinado, é louvável investigar em que tempo ela se realizará. Prova-o com o louvor que S. Pedro dá aos Profetas: «que fizeram profecias sobre a graça em vós, perscrutando em que tempo e qual tempo ela se manifestaria», (I, IO-II); de maneira que, assim como entre os homens é digno de louvor resolver os seus enigmas, assim também o é, tratando-se dos enigmas de Deus: 4) Que também é louvável investigação o tempo do acontecimento futuro" mesmo quando Deus declara que se não pode saber; na verdade, posto que isso determinadamente se não pode saber, quanto ao dia e ano, pode contudo moralmente prognosticar-se, com maior ou menor aproximação. Aduz geralmente o Autor o dito de Cristo, Senhor nosso: «Quanto ao dia e à hora ninguém os sabe, nem os Anjos do Céu.»


Ora Cristo, Senhor nosso,—diz o Autor—unicamente nega poder saber-se o determinado dia do Juízo Final; não nega, porém, que, sem precisar dia nem hora, se possa moralmente indicar com probabilidade, dentro de maior ou menor espaço de tempo. E prova este seu asserto, em primeiro lugar, com a resposta dada por Cristo, Senhor nosso, aos Apóstolos que o interrogavam sobre o Dia de Juízo: «Dizei-nos quando acontecerão essas coisas e qual o sinal da vossa vinda e da consumação do século»; neste caso Cristo, Senhor nosso, calou o tempo determinado, mas deu, contudo os sinais que mostravam que tal tempo não era distante. Portanto, se bem ninguém possa saber em que tempo preciso se deva consumar na terra o Reino de Cristo, Senhor nosso, ou aquele em que o Mundo se acabará é, contudo possível concluir-se de sinais o tempo aproximado, tal como o médico, sem prognosticar o dia certo da morte, pode com freqüência predizê-lo com probabilidade, com maior ou menor aproximação. Prova o mesmo asserto, em segundo lugar, com copiosos textos dos Santos Padres, que conjecturando próximos o Dia de Juízo e o fim do Mundo, uns os concebem anunciados por pestes, outros por guerras, outros por sedições, outros por outros sinais. Todos eles, se bem tenham errado nos prognósticos, contudo mostraram com seu exemplo digno de louvor a conjectura. Portanto, se a eles isso foi lícito, posto que tanto distassem do fim do Mundo, muito mais a si próprio, diz o Autor, o pode ser, visto que não é a tão grande distância de tal fim.


Resolve os argumentos opostos, dizendo que aquilo que algum tempo é inútil, pode não o ser noutra ocasião. Quando Cristo disse aos Apóstolos: Não nos pertence saber o tempo, então era-lhes inútil, até mesmo pernicioso saber o que havia decretado acerca do reino israelítico; se dissesse que nunca mais seria restabelecido, ou que o não seria senão depois da última conversão dos Hebreus à Fé Cristã teriam ficado imensamente tristes; e por isso assim como Cristo, Senhor nosso, aos dois filhos de Zebedeu, que lhe pediam participação no reinado, respondeu: «Não me pertence o dar-vos», assim aos discípulos: «Não vos pertence conhecer o tempo»


Admiravelmente responde ao argumento da paridade da cronologia dos tempos pretéritos com a que ele deduz. Afirma, na verdade: Os Autores são nela discordes, porque são em discordância quanto à computação dos anos desde o começo do Mundo até o Dilúvio, do Dilúvio a Moisés, de Moisés à edificação do Templo; portanto, não é de admirar — conclui — que seja muito incerta a cronologia do tempo passado.


Pelo contrário, não o é a do tempo futuro, porque ele não começa desde a criação do Mundo, para deste saber o fim, antes procede retrogradando, ou seja, desde o fim do Mundo até o advento do Anti-Cristo, e à propagação do Evangelho a todos os povos e conversão dos Hebreus à Fé Cristã, e deste modo algum tanto se pode prognosticar com muita probabilidade e maior segurança a respeito do fim do Mundo.


Eis, por suas mesmas palavras, a admirável cogitação do Autor: Nós, pelo contrário, encontrando caminho novo procedendo do fim para o princípio (para desde já começar o meu raciocínio), seguiremos do fim do Mundo até o Anticristo, do Anticristo até a universal pregação e aceitação do Evangelho, regressando até a nossa idade e em tríplice meta estabelecida ao longo dos tempos futuros, sem fazer tropeçar o leitor, vamos para Cristo, ao mesmo tempo que tudo iremos demonstrando em seu lugar. Baste por agora tudo apontar com o dedo para que a força da argumentação não detenha suspenso o leitor.»


Note-se: tudo iremos demonstrando, não tudo é demonstrado. Assim, pois, os tratados Da paz do Messias, Da conversão universal do Mundo, Do templo de Ezequiel, ou não pertencem ao II Livro, pois escreveria—tudo é demonstrado — ou cumprirá dizer que o autor, para conjeturar sobre o fim do Mundo, regressa a tratados já expostos no mesmo Livro II.


Conclui o Cap. I dizendo: «Mas entremos desde já, guiados pelo verbo do Senhor, no Capítulo I.» E este I Capítulo termina, sem que se lhe sigam quaisquer outros.




FIM. LOUVOR A DEUS


Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística.




Paz de Cristo Irmãos .

07/09/2009

Sermão do bom ladrão

Sermão do Bom Ladrão (1655),
de Padre António Vieira.

I
Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos. Permite isto a misericórdia de Deus ? Não. A primeira diligência que faz é eleger por procurador das cadeias um irmão de grande autoridade e poder , e o primeiro timbre deste procurador é fazer honra de que nenhum malfeitor seja justiçado em seu tempo. Logo esta parte da história não pertence à Misericórdia de Lisboa. A outra parte — que é a que tomei por tema — toda pertence ao Paço e à Capela Real. Nela se fala com o rei: Domine; nela se trata do seu reino: nela se lhe apresentam memoriais: e nela os despacha o mesmo rei logo, e sem remissão, a outros tribunais: O que me podia retrair de pregar sobre esta matéria, era não dizer a doutrina com o lugar. Mas deste escrúpulo, em que muitos pregadores não reparam, me livrou a pregação de Jonas. Não pregou Jonas no paço, senão pelas ruas de Nínive, cidade de mais longes que esta nossa, e diz o texto sagrado que logo a sua pregação chegou aos ouvidos do rei: (Jon. 3,6). Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis, e mais ainda aos estrangeiros que aos nossos. Todos devem imitar ao Rei dos reis, e todos têm muito que aprender nesta última ação de sua vida. Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar.Ave Maria.

II
Levarem os reis consigo ao Paraíso, ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. E se isto é assim, como logo mostrarei com evidência, ninguém me pode estranhar a clareza ou publicidade com que falo e falarei, em matéria que envolve tão soberanos respeitos, antes admirar o silêncio, e condenar a desatenção com que os pregadores dissimulam uma tão necessária doutrina, sendo a que devera ser mais ouvida e declamada nos púlpitos. Seja, pois, novo hoje o assunto, que devera ser muito antigo e mui freqüente, o qual eu prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis.

III

E para que um discurso tão importante e tão grave vá assentado sobre fundamentos sólidos e irrefragáveis, suponho primeiramente que sem restituição do alheio não pode haver salvação. Assim o resolvem com Santo Tomás todos os teólogos, e assim está definido no capítulo com palavras tiradas de Santo Agostinho, que são estas: Se o alheio, que se tomou ou retém, se pode restituir, e não se restitui, a penitência deste e dos outros pecados não é verdadeira penitência, senão simulada e fingida, porque se não perdoa o pecado sem se restituir o roubado, quando quem o roubou tem possibilidade de o restituir. — Esta única exceção da regra foi a felicidade do Bom Ladrão, e esta a razão por que ele se salvou, e também o mau se pudera salvar sem restituírem. Como ambos saíram do naufrágio desta vida despidos e pegados a um pau, só esta sua extrema pobreza os podia absolver dos latrocínios que tinham cometido,porque,impossibilitados à restituição, ficavam desobrigados dela. Porém, se o Bom Ladrão tivera bens com que restituir, ou em todo, ou em parte o que roubou, toda a sua fé e toda a sua penitência, tão celebrada dos santos, não bastara a o salvar, se não restituísse. Duas coisas lhe faltavam a este venturoso homem para se salvar: uma como ladrão que tinha sido, outra como cristão que começava a ser. Como ladrão que tinha sido, faltava-lhe com que restituir; como cristão que começava a ser, faltava-lhe o Batismo; mas assim como o sangue que derramou na cruz lhe supriu o Batismo, assim a sua desnudez e a sua impossibilidade lhe supriu a restituição, e por isso se salvou. Vejam agora, de caminho, os que roubaram na vida, e nem na vida, nem na morte restituíram, antes da morte usaram de muitos bens e deixaram grossas heranças a seus sucessores, vejam onde irão ou terão ido suas almas, e se se podiam salvar.
Era tão rigoroso este preceito da restituição na lei velha, que, se o que furtou não tinha com que restituir, mandava Deus que fosse vendido, e restituísse com o preço de si mesmo: (Êx. 22,3). De modo que, enquanto um homem era seu, e possuidor da sua liberdade, posto que não tivesse outra coisa, até que não vendesse a própria pessoa, e restituísse o que podia com o preço de si mesmo, não o julgava a lei por impossibilitado à restituição, nem o desobrigava dela. Que uma tal lei fosse justa não se pode duvidar, porque era lei de Deus, e posto que o mesmo Deus na lei da graça derrogou esta circunstância de rigor, que era de direito positivo; porém na lei natural, que é indispensável, e manda restituir a quem pode e tem com que, tão fora esteve de variar ou moderar coisa alguma, que nem o mesmo Cristo na cruz prometeria o Paraíso ao ladrão, em tal caso, sem que primeiro restituísse. Ponhamos outro ladrão à vista deste, e vejamos admiravelmente no juízo do mesmo Cristo a diferença de um caso a outro.
Assim como Cristo, Senhor nosso, disse a Dimas:(um dos ladrões crucificados com ele) Hoje estarás comigo no Paraíso — assim disse a Zaqueu: (Lc. 19,9): Hoje entrou a salvação nesta tua casa. — Mas o que muito se deve notar é que a Dimas prometeu-lhe o Senhor a salvação logo, e a Zaqueu não logo, senão muito depois. E por que, se ambos eram ladrões, e ambos convertidos? Porque Dimas era ladrão pobre, e não tinha com que restituir o que roubara; Zaqueu era ladrão rico, e tinha muito com que restituir: diz o evangelista. E ainda que ele o não dissera, o estado de um e outro ladrão o declarava assaz. Por quê ? Porque Dimas era ladrão condenado, e se ele fora rico, claro está que não havia de chegar à forca; porém Zaqueu era ladrão tolerado, e a sua mesma riqueza era a imunidade que tinha para roubar sem castigo, e ainda sem culpa. E como Dimas era ladrão pobre, e não tinha com que restituir, também não tinha impedimento a sua salvação, e por isso Cristo lha concedeu no mesmo momento. Pelo contrário, Zaqueu, como era ladrão rico, e tinha muito com que restituir, não lhe podia Cristo segurar a salvação antes que restituísse, e por isso lhe dilatou a promessa. A mesma narração do Evangelho é a melhor prova desta diferença.
Conhecia Zaqueu a Cristo só por fama, e desejava muito vê-lo. Passou o Senhor pela sua terra, e ele era pequeno de estatura, e o senhor, sem reparar na autoridade da pessoa e do ofício: subiu-se a uma árvore para o ver, e não só viu, mas foi visto, e muito bem visto. Pôs nele o Senhor aqueles divinos olhos, chamou-o por seu nome, e disse-lhe que se descesse logo da árvore, porque lhe importava ser seu hóspede naquele dia: Entrou, pois, o Salvador em casa de Zaqueu, e aqui parece que cabia bem o dizer-lhe, que então entrara a salvação em sua casa; mas nem isto, nem outra palavra disse o Senhor. Recebeu-o Zaqueu e festejou a sua vinda com todas as demonstrações de alegria: , e guardou o Senhor o mesmo silêncio. Assentou-se à mesa abundante de iguarias, e muito mais de boa vontade, que é o melhor prato para Cristo, e prosseguiu na mesma suspensão. Sobretudo disse Zaqueu que ele dava aos pobres a metade de todos seus bens: E sendo o Senhor aquele que no dia do Juízo só aos merecimentos da esmola há de premiar com o reino do céu, quem não havia de cuidar que a este grande ato de liberalidade com os pobres responderia logo a promessa da salvação? Mas nem aqui mereceu ouvir Zaqueu o que depois lhe disse Cristo. — Pois, Senhor, se vossa piedade e verdade tem dito tantas vezes que o que se faz aos pobres se faz a vós mesmo, e este homem na vossa pessoa vos está servindo com tantos obséquios, e na dos pobres com tantos empenhos, se vos convidastes a ser seu hóspede para o salvar, e a sua salvação é a importância que vos trouxe à sua casa, se o chamastes, e acudiu com tanta diligência, se lhe dissestes que se apressasse: , e ele se não deteve um momento, por que lhe dilatais tanto a mesma graça que lhe desejais fazer, por que o não acabais de absolver, por que lhe não asegurais a salvação?
Porque este mesmo Zaqueu, como cabeça de publicanos: , tinha roubado a muitos, e como rico que era: tinha com que restituir o que roubara, e enquanto estava devedor e não restituía o alheio, por mais boas obras que fizesse, nem o mesmo Cristo o podia absolver, e por mais que despendesse piamente, nem o mesmo Cristo o podia salvar. Todas as outras obras, que depois daquela venturosa vista fazia Zaqueu, eram muito louváveis; mas enquanto não chegava a fazer a da restituição, não estava capaz da salvação. Restitua, e logo será salvo: e assim foi. Acrescentou Zaqueu que tudo o que tinha mal adquirido restituía em quatro dobros: E no mesmo ponto o Senhor, que até ali tinha calado, desfechou os tesouros de sua graça e lhe anunciou a salvação: De sorte que, ainda que entrou o Salvador em casa de Zaqueu, a salvação ficou de fora, porque, enquanto não saiu da mesma casa a restituição, não podia entrar nela a salvação. A salvação não pode entrar sem se perdoar o pecado, e o pecado não se pode perdoar sem se restituir o roubado:
IV
Suposta esta primeira verdade certa e infalível, a segunda coisa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio, sob pena da salvação, não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza os fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim Santo Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade. Quer dizer: A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: Oh ! que terrível e temerosa conseqüência, e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor Angélico, e, posto que não costumo molestar os ouvintes , hei de referir as suas próprias palavras: Respondo — diz Santo Tomás — que se os príncipes tiram dos súditos o que segundo justiça lhes é devido para conversação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigado à restituição, como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto é mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
E por que a palavra rapina e latrocínio, aplicada a sujeitos da suprema esfera, é tão alheia das lisonjas que estão costumados a ouvir, que parece conter alguma dissonância, escusa tacitamente o seu modo de falar, e prova a sua doutrina o santo Doutor com dois textos alheios, um divino, do profeta Ezequiel, e outro pouco menos que divino, de Santo Agostinho. O texto de Ezequiel é parte do relatório das culpas por que Deus castigou tão severamente os dois reinos de Israel e Judá, um com o cativeiro dos assírios, e ooutro, com o dos babilônios; e a causa que dá, e muito pondera, é que os seus príncipes, em vez de guardarem os povos como pastores, os roubavam como lobos: Só dois reis elegeu Deus por si mesmo, que foram Saul e Davi, e a ambos os tirou de pastores, para que, pela experiência dos rebanhos que guardavam, soubessem como haviam de tratar os vassalos; mas seus sucessores, por ambição e cobiça, degeneraram tanto deste amor e deste cuidado que, em vez de os guardar e apascentar como ovelhas, os roubavam e comiam como lobos. O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que, entre os tais reinos e as covas dos ladrões — a que o santo chama latrocínios — só há uma diferença. E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos.É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno: Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é... O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: ladrão.Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.
Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloqüentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam, que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. Mas passemos brevemente à terceira e última suposição,que todas três são necessárias para chegarmos ao ponto.
V
Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem São Basílio Magno: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a dministração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
VI
Declarado assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse e digo que levam consigo os reis ao inferno. Que eles fossem lá sós, e o diabo os levasse a eles, seja muito na má hora, pois assim o querem; mas que hajam de levar consigo os reis é uma dor que se não pode sofrer, e por isso nem calar. Mas se os reis tão fora estão de tomar o alheio, que antes eles são os roubados, e os mais roubados de todos, como levam ao inferno consigo estes maus ladrões a estes bons reis? Não por um só, senão por muitos modos, os quais parecem insensíveis e ocultos, e são muito claros e manifestos. O primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes com que roubam; o segundo, porque os reis os conservam neles; o terceiro, porque os reis os adiantam e promovem a outros maiores; e, finalmente, porque, sendo os reis obrigados, sob pena de salvação, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem. E quem diz isto já se sabe que há de ser Santo Tomás. Faz questão Santo Tomás, se a pessoa que não furtou, nem recebeu ou possui coisa alguma do furto, pode ter obrigação de o restituir. E não só resolve que sim, mas, para maior expressão do que vou dizendo, põe o exemplo nos reis. Vai o texto: Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça. — É tão natural e tão clara esta teologia, que até Agamenão, rei gentio, a conheceu.E se nesta obrigação de restituir incorrem os príncipes pelos furtos que cometem os ladrões casuais e involuntários, que será pelos que eles mesmos, e por própria eleição, armaram de jurisdições e poderes, com que roubam os mesmos povos? A tenção dos príncipes não é nem pode ser essa; mas basta que esses oficiais, ou de Guerra, ou de Fazenda, ou de Justiça, que cometem os roubos, sejam eleições e feituras suas, para que os príncipes hajam de pagar o que eles fizeram. Ponhamos o exemplo da culpa, onde a não pode haver. Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, exceta somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher — que muitas vezes são as terceiras — aquela só coisa (a maçã) que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com o ofício, já o temos ladrão. E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. O mesmo Deus o disse assim, referindo o muito que lhe custara a satisfação do furto e dos danos dele: Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci,vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei. Adão foi o que furtou, e eu o que paguei.
Pois, Senhor meu, que culpa teve vossa divina Majestade no furto de Adão? — Nenhuma culpa tive, nem a tivera, ainda que não fora Deus, porque na eleição daquele homem, e no ofício que lhe dei, em tudo procedi com a circunspecção, prudência e providência com que o devera e deve fazer o príncipe mais atento a suas obrigações, mais considerado e mais justo. Primeiramente, quando o fiz, não foi com império despótico, como as outras criaturas, senão com maduro conselho, e por consulta de pessoas não humanas, senão divinas. As partes e qualidades que concorriam no eleito eram as mais adequadas ao ofício que se podiam desejar nem imaginar, porque era o mais sábio de todos os homens, justo e sem vício, reto e sem injustiça, e senhor de todas as suas paixões, as quais tinha sujeitas e obedientes à razão. Só lhe faltava a experiência, nem houve concurso de outros sujeitos na sua eleição, mas ambas estas coisas não as podia então haver, porque era o primeiro homem, e o único. — Pois, se a vossa eleição, Senhor, foi tão justa e tão justificada, que bastava ser vossa para o ser, por que haveis vós de pagar o furto que ele fez, sendo toda a culpa sua? — Porque quero dar este exemplo e documento aos príncipes, e porque não convém que fique no mundo tão má e perniciosa conseqüência, como seria, se os príncipes se persuadissem em algum caso que não eram obrigados a pagar e satisfazer o que seus ministros roubassem.
VII
Mas estou vendo que com este mesmo exemplo de Deus se desculpam ou podem desculpar os reis, porque, se a Deus lhe sucedeu tão mal com Adão, conhecendo muito bem Deus o que ele havia de ser, que muito é que suceda o mesmo aos reis, com os homens que elegem para os ofícios, se eles não sabem nem podem saber o que depois farão? A desculpa é aparente, mas tão falsa como mal fundada, porque Deus não faz eleição dos homens pelo que sabe que hão de ser, senão pelo que de presente são. Bem sabia Cristo que Judas havia de ser ladrão; mas quando o elegeu para o ofício em que o foi, não só não era ladrão, mas muito digno de se lhe fiar o cuidado de guardar e distribuir as esmolas dos pobres. Elejam assim os reis as pessoas, e provejam assim os ofícios, e Deus os desobrigará nesta parte da restituição. Porém as eleições e provimentos que se usam não se fazem assim. Querem saber os reis se os que provêem nos ofícios são ladrões ou não? Observem a regra de Cristo. A porta por onde legitimamente se entra ao ofício, é só o merecimento. E todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão, senão ladrão e ladrão. E por que é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação. E quem negocia não há outra prova: já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto, que essa é, como diz São Jerônimo, a diferença.
Coisa é certo maravilhosa ver a alguns tão introduzidos e tão entrados, não entrando pela porta nem podendo entrar por ela. Se entraram pelas janelas, como aqueles ladrões de que faz menção Joel: grande desgraça é que, sendo as janelas feitas para entrar a luz e o ar, entrem por elas as trevas e os ladrões; entraram minando a casa do pai de famílias, como o ladrão da parábola de Cristo: ainda seria maior desgraça que o sono, ou letargo do dono da casa fosse tão pesado que, minando-se-lhe as paredes, não o espertassem os golpes. Mas o que excede toda a admiração é que haja quem, achando a porta fechada, empreenda entrar por cima dos telhados, e o consiga, e mais sem ter pés, nem mãos,quanto mais asas. Estava Cristo, Senhor nosso, curando milagrosamente os enfermos dentro de uma casa, e era tanto os doentes que, não podendo os que levavam um paralítico entrar pela porta, subiram-se com ele ao telhado, e por cima do telhado o introduziram. Ainda e mais admirável a consideração do sujeito, que o modo e lugar da introdução. Um homem que entrasse por cima dos telhados, quem não havia de julgar que era caído do céu. E o tal homem era um paralítico que não tinha pés, nem mãos, nem sentido, nem movimento, mas teve com que pagar a quatro homens, que o tomaram às costas, e o subiram tão alto.
E como os que trazem às costas semelhantes sujeitos estão tão pagos deles, que muito é que digam e informem — posto que sejam tão incapazes — que lhes sobejam merecimentos por cima dos telhados. Como não podem alegar façanhas de quem não tem mãos, dizem virtudes e bondades. Dizem que, com seus procedimentos, cativa a todos. E como não havia de cativar, se os comprou? Dizem que, fazendo sua obrigação, todos lhe ficam devendo dinheiro: e como lho não hão de dever, se lho tomaram? Deixo os que sobem aos postos pelos cabelos, e não com as forças de Sansão, senão com os favores de Dalila. Deixo os que, com voz conhecida de Jacó, levam a bênção de Esaú, e não com as luvas calçadas, senão dadas ou prometidas. Deixo os que, sendo mais leprosos que Naamã Siro, se alimparam da lepra, e não com as águas do Jordão, senão com as do Rio da Prata. É isto, e o mais que se podia dizer, entrar pela porta? Claro está que não. Pois se nada disto se faz, senão na face do sol, e na luz do meio-dia, como se pode escusar quem ao menos firma os provimentos de que não conhecia serem ladrões os que por estes meios foram providos? Finalmente, ou os conhecia, ou não: se os não conhecia, como os proveu sem os conhecer? E se os conhecia, como os proveu conhecendo-os? Mas vamos aos providos com expresso conhecimento de suas qualidades.
VIII
Dom Fulano — diz a piedade bem-intencionada — é um fidalgo pobre: dê-se-lhe um governo.
— E quantas impiedades, ou advertidas ou não, se contém nesta piedade? Se é pobre, dêem-lhe uma esmola honesta, e tenha com que viver. Mas por que é pobre, um governo, para que vá desempobrecer à custa dos que governar? E para que vá fazer muitos pobres à conta de tornar muito rico? Isto quer quem o elege por este motivo. Vamos aos do prêmio, e também aos do castigo. Certo capitão mais antigo tem muitos anos de serviço: dêem-lhe uma fortaleza nas conquistas. Mas se estes anos de serviço assentam sobre um sujeito que os primeiros despojos que tomava na guerra, eram a farda e a ração dos seus próprios soldados, despidos e mortos de fome,que há de fazer?
Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.
É certo que os reis não querem isto, antes mandam em seus regimentos tudo o contrário; mas como as patentes se dão aos gramáticos destas conjugações, tão peritos ou tão cadimos nelas, que outros efeitos se podem esperar dos seus governos? Cada patente destas, em própria significação, vem a ser uma licença geral , ou um passaporte para furtar. Em Holanda, onde há tantos armadores de corsários,repartem-se as costas da África, da Ásia e da América com tempo limitado, e nenhum pode sair a roubar sem passaporte, a que chamam carta de marca. Isto mesmo valem as provisões, quando se dão aos que eram mais dignos da marca que da carta. Por mar padecem os moradores das conquistas a pirataria dos corsários estrangeiros, que é contingente; na terra suportam a dos naturais, que é certa e infalível. E se alguém duvida qual seja maior, note a diferença de uns a outros. O pirata do mar não rouba aos da sua república: os da terra roubam os vassalos do mesmo rei, em cujas mãos juraram homenagem; do corsário do mar posso me defender: aos da terra não posso resistir; do corsário do mar posso fugir: dos da terra não me posso esconder; o corsário do mar depende dos ventos; os da terra sempre têm por si a monção; enfim, o corsário do mar pode o que pode: os da terra podem o que querem, e por isso nenhuma presa lhes escapa. Se houvesse um ladrão onipotente, que vos parece que faria a cobiça junta com a onipotência? Pois isso é o que fazem estes corsários.
IX
Dos que obram o contrário com singular inteireza de justiça e limpeza de interesse, alguns exemplos temos, posto que poucos. Mas folgara eu saber quantos exemplos há, não digo já dos que fossem justiçados como tão insignes ladrões, mas dos que fossem privados do governo por estes roubos. Pois, se eles furtam com os ofícios, e os consentem e conservam nos mesmos ofícios, como não hão de levar consigo ao inferno os que os consentem? O meu Santo Tomás o diz, e alega com o texto de São Paulo: E porque o rigor deste texto se entende não de qualquer consentidor, senão daqueles que, por razão de seu ofício ou estado, tem obrigação de impedir, faz logo a mesma limitação o santo Doutor, e põe o exemplo nomeadamente nos príncipes. Verdadeiramente não sei como não reparam muito os príncipes em matéria de tanta importância, e como os não fazem reparar os que no foro exterior, ou no da alma, têm cargo de descarregar suas consciências. Vejam uns e outros como a todos ensinou Cristo, que o ladrão que furta com o oficio, nem um momento se há de consentir ou conservar nele.
Havia um senhor rico, diz o divino Mestre, o qual tinha um criado, que com ofício de ecônomo ou administrador governava as suas heranças , que responde ao villico da Vulgata. — Infamado pois o administrador de que se aproveitava da administração e roubava, tanto que chegou a primeira notícia ao Senhor, mandou-o logo vir diante de si, e disse-lhe que desse contas, porque já não havia de exercitar o ofício. Ainda a resolução foi mais apertada, porque não só disse que não havia, senão que não podia. Não tem palavra esta parábola que não esteja cheia de notáveis doutrinas a nosso propósito. Primeiramente diz que este senhor era um homem rico: (Lc. 16,1), porque não será homem quem não tiver resolução, nem será rico, por mais herança que tenha, quem não tiver cuidado, e grande cuidado, de não consentir que lhas governem ladrões. Diz mais que, para privar a este ladrão do ofício, bastou somente a fama, sem outras inquirições. porque se em tais casos houverem de mandar buscar informações à Índia ou ao Brasil, primeiro que elas cheguem, e se lhes ponha remédio, não haverá Brasil nem Índia. Não se diz, porém, nem se sabe quem fossem os autores ou delatores desta fama, porque a estes há-lhes de guardar segredo o senhor inviolavelmente, sob pena de não haver quem se atreva a o avisar, temendo justamente a ira dos poderosos. Diz mais, que mandou vir o delatado diante de si. porque semelhantes averiguações, se se cometem a outros, e não as faz o mesmo senhor por sua própria pessoa, com dar o ladrão parte do que roubou, prova que está inocente. Finalmente, desengana-o e notifica-lhe que não há de exercitar jamais o ofício, nem pode. porque nem o ladrão conhecido deve continuar o ofício em que foi ladrão, nem o senhor, ainda que quisesse, o pode consentir e conservar nele, se não se quer condenar.
Com tudo isto ser assim, eu ainda tenho uns embargos que alegar, por parte deste ladrão, diante do Senhor e autor da mesma parábola, que é Cristo. Provará que nem o furto, por sua quantidade, nem a pessoa, por seu talento, parecem merecedores de privação do ofício para sempre. Este homem, Senhor, posto que cometesse este erro, é um sujeito de grande talento, de grande indústria, de grande entendimento e prudência, como vós mesmo confessastes, e ainda louvastes, que é mais; pois, se é homem de tanto préstimo, e tem capacidade e talentos para vos tornardes a servir dele, por que o haveis de privar para sempre do vosso serviço: Suspendei-o agora por alguns meses, como se usa, e depois o tomareis a restituir, para que nem vós o percais, nem ele fique perdido. -Não, diz Cristo. Uma vez que é ladrão conhecido, não só há de ser suspenso ou privado do ofício , senão para sempre e para nunca jamais entrar ou poder entrar: porque o uso ou abuso dessas restituições, ainda que parece piedade, é manifesta injustiça. De maneira que, em vez de o ladrão restituir o que furtou no ofício, restitui-se o ladrão ao ofício, para que furte ainda mais? Não são essas as restituições pelas quais se perdoa o pecado, senão aquelas por que se condenam os restituídos, e também quem os restitui.Perca-se embora um homem já perdido, e não se percam os muitos que se podem perder e perdem na confiança de semelhantes exemplos.
Suposto que este primeiro artigo dos meus embargos não pegou, passemos a outro. Os furtos deste homem foram tão leves, e a quantidade tão limitada, que o mesmo texto lhes não dá nome de furtos absolutamente, senão de quase furtos: Pois em um mundo, Senhor, e em um tempo em que se vêm tolerados nos ofícios tantos ladrões, e premiados, que é mais, os ladrões, será bem que seja privado do seu ofício, e privado para sempre, um homem que só chegou a ser quase ladrão? — Sim, torna a dizer Cristo, para emenda dos mesmos tempos, e para que conheça o mesmo mundo quão errado vai. Assim como nas matérias do sexto Mandamento teologicamente não há mínimos, assim os deve não haver politicamente nas matérias do sétimo, porque quem furtou e se desonrou no pouco, muito mais facilmente o fará no muito. E se não, vede-o nesse mesmo quase ladrão. Tanto que se viu notificado para não servir o ofício, ainda teve traça para se servir dele e furtar mais do que tinha furtado. Manda chamar muito à pressa os rendeiros, rompe os escritos das dívidas, faz outros de novo com antedatas, a uns diminui a metade, a outros a quinta parte, e por este modo, roubando ao tempo os dias, às escrituras a verdade, e ao amo o dinheiro, aquele que só tinha sido quase ladrão, enquanto encartado no ofício, com a opinião que só tinha de o ter, foi mais que ladrão depois. Aqui acabei de entender a ênfase com que disse a pastora dos Cantares: (Cânt. 5,7): Tomaram-me a minha capa a mim — porque se pode roubar a capa a um homem, tomando-a não a ele, senão a outrem. Assim o fez a astúcia deste ladrão, que roubou o dinheiro a seu amo, tomando-o não a ele senão aos que lho deviam. De sorte que o que dantes era um ladrão, depois foi muitos ladrões, não se contentando de o ser ele só, senão de fazer a outros. Mas vá ele muito embora ao inferno, e vão os outros com ele, e os príncipes imitem ao Senhor, que se livrou de ir também, com o privar do ofício tão prontamente.
x
Esta doutrina em geral, pois é de Cristo, nenhum entendimento cristão haverá que a não venere. Haverá, porém, algum político tão especulativo que a queira limitar a certo gênero de sujeitos, e que funde as exceções no mesmo texto. O sujeito em que se fez esta execução, chama-lhe o texto villico: logo, em pessoas vis, ou de inferior condição, será bem que se executem estes e semelhantes rigores, e não em outras de diferente suposição, com as quais, por sua qualidade e outras dependências, é lícito e conveniente que os reis dissimulem. Oh! como está o inferno cheio dos que com estas e outras interpretações, por adularem os grandes e os supremos, não reparam em os condenar! Mas, para que não creiam a aduladores, creiam a Deus, e ouçam. Revelou Deus a Josué que se tinha cometido um furto nos despojos de Jericó, depois de lho ter bem custosamente significado, com o infeliz sucesso do seu exército. E mandou-lhe que, descoberto o ladrão, fosse queimado. Fez-se diligência exata, e achou-se que um, chamado Acã tinha furtado uma capa de grã, uma regra de ouro, e algumas moedas de prata, que tudo não valia cem reais. Mas quem era este Acã? Era porventura algum homem vil, ou algum soldadinho da fortuna, desconhecido e nascido das ervas? Não era menos que do sangue real de Judá, e por linha masculina, quarto neto seu. Pois, uma pessoa de tão alta qualidade, que ninguém era ilustre em todo Israel, senão pelo parentesco que tinha com ele, há de morrer queimado por ladrão? E por um furto, que hoje seria venial, há de ficar afrontada para sempre uma casa tão ilustre? Vós direis que era bem se dissimulasse; mas Deus, que o entende melhor que vós, julgou que não. Em matéria de furtar não há exceção de pessoas e sangue , quem se abateu a tais vilezas, perdeu todos os foros. Executou-se com efeito a lei, foi justiçado e queimado Acã, ficou o povo ensinado com o exemplo, e ele foi venturoso no mesmo castigo, porque, como notam graves autores, comutou-lhe Deus aquele fogo temporal pelo que havia de padecer no inferno, felicidade que impedem aos ladrões os que dissimulam com eles.

E quanto à dissimulação que se diz devem ter os reis com pessoas de grande suposição, de quem talvez depende a conservação do bem público, e são mui necessárias a seu serviço, respondo com distinção. Quando o delito é digno de morte, pode-se dissimular o castigo e conceder-se às tais pessoas a vida; mas quando o caso é de furto, não se lhes pode dissimular a ocasião, mas logo logo devem ser privadas do posto. Ambas estas circunstâncias concorreram no crime de Adão. Pôs-lhe Deus preceito que não comesse da árvore vedada, sob pena de que morreria no mesmo dia: Não guardou Adão o preceito, roubou o fruto, e ficou sujeito, à pena de morte. Mas, que fez Deus neste caso? tirou-o logo do Paraíso, e concedeu-lhe a vida por muitos anos. Pois, se Deus o tirou do Paraíso pelo furto que tinha cometido, por que não executou também nele a pena de morte a que ficou sujeito? Porque da vida de Adão dependia a conservação e propagação do mundo, e quando as pessoas são de tanta importância, e tão necessárias ao bem público, justo é que, ainda que mereçam a morte, se lhes permita e conceda a vida. Porém, se juntamente são ladrões, de nenhum modo se pode consentir nem dissimular que continuem no posto e lugar onde o foram, para que não continuem a o ser. Assim o fez Deus, e assim o disse. Pôs um querubim com uma espada de fogo à porta do Paraíso, com ordem que de nenhum modo deixasse entrar a Adão. E por quê? Porque assim como tinha furtado da árvore da ciência, não furtasse também da árvore da vida: Quem foi mau uma vez, presume o Direito que o será outras, e que o será sempre. Saia pois Adão do lugar onde furtou, e não torne a entrar nele, para que não tenha ocasião de fazer outros furtos, como fez o primeiro. E notai que Adão, depois de ser privado do Paraíso, viveu novecentos e trinta anos. Pois, a um homem castigado e arrependido, não lhe bastaram cem anos de privação do posto, não lhe bastarão duzentos ou trezentos? Não. Ainda que haja de viver novecentos anos, e houvesse de viver nove mil, uma vez que roubou, e é conhecido por ladrão, nunca mais deve ser restituído, nem há de entrar no mesmo posto.
XI
Assim o fez Deus com o primeiro homem do mundo, e assim o devem executar com todos os que estão em lugar de Deus(os governantes). Mas que seria se não só víssemos os ladrões conservados nos lugares onde roubam, senão, depois de roubarem, promovidos a outros maiores? Acabaram-se-me aqui as Escrituras, porque não há nelas exemplo semelhante. De reis que mandassem conquistar inimigos, sim, mas de reis que mandassem governar vassalos, não se lê tal coisa. Os Assueros, os Nabucos, os Ciros, que dilatavam por armas os seus impérios, desta maneira premiavam os capitães, acrescentando em postos os que mais se sinalavam em destruir cidades e acumular despojos, e daqui se faziam os Nabusardões, os Holofernes, e os outros flagelos do mundo. Porém os reis, que tratam os vassalos como seus, e os Estados, mesmo que distantes, como fazenda própria, e não alheia, lede o Evangelho, e vereis quais são os sujeitos, e quão úteis a quem encomendam o governo deles.
Um rei, diz Cristo, Senhor nosso, fazendo ausência do seu reino à conquista de outro, encomendou a administração da sua fazenda a três criados. O primeiro acrescentou-a dez vezes mais do que era, e o rei, depois de o louvar, o promoveu ao governo de dez cidades: . O segundo também acrescentou à parte que lhe coube cinco vezes mais, e com a mesma proporção o fez o rei governador de cinco cidades: De sorte que os que o rei acrescenta e deve acrescentar nos governos, segundo a doutrina de Cristo, são os que acrescentam a fazenda do mesmo rei, e não a sua. Mas vamos ao terceiro criado. Este tornou a entregar quanto o rei lhe tinha encomendado, sem diminuição alguma, mas também sem melhoramento, e no mesmo ponto, sem mais réplica, foi privado da administração: . Oh! que ditosos foram os nossos tempos, se as culpas por que este criado foi privado do ofício foram os serviços e merecimentos por que os dagora são acrescentados! Se o que não tomou um real para si, e deixou as coisas no estado em que lhas entregaram, merece privação do cargo, os que as deixam destruídas e perdidas, e tão diminuídas e desbaratadas, que já não têm semelhança do que foram, que merecem? Merecem que os despachem, que os acrescentem e que lhes encarreguem outras maiores, para que também as consumam e tudo se acabe? Eu cuidava que, assim como Cristo introduziu na sua parábola dois criados que acrescentaram a fazenda do rei, e um que a não acrescentou, assim havia de introduzir outro que a roubasse, com que ficava a divisão inteira. Mas não introduziu o divino Mestre tal criado, porque falava de um rei prudente e justo, e os que têm estas qualidades — como devem ter, sob pena de não serem reis — nem admitem em seu serviço, nem fiam a sua fazenda a sujeitos que lha possam roubar: a algum que não lha acrescente, poderá ser, mas um só; porém a quem lhe roube, ou a sua, ou a dos seus vassalos — que não deve distinguir da sua — não é justo, nem reis quem tal consente. E que seria se estes, depois de roubarem uma cidade, fossem promovidos ao governo de cinco, e, depois de roubarem cinco, ao governo de dez?
Que mais havia de fazer um príncipe cristão, se fora como aqueles príncipes infiéis, de quem diz Isaías: (Is. 1, 23): Os príncipes de Jerusalém não são fiéis, senão infiéis, porque são companheiros dos ladrões. — Pois saiba o profeta que há príncipes fiéis e cristãos, que ainda são mais miseráveis e mais infelizes que estes, porque um príncipe que entrasse em companhia com os ladrões: havia de ter também a sua parte no que se roubasse; mas estes estão tão fora de ter parte no que se rouba, que eles são os primeiros, os mais roubados. Pois, se são os roubados estes príncipes, como são ou podem ser companheiros dos mesmos ladrões: Será porventura porque talvez os que acompanham e assistem aos príncipes são ladrões? Se assim fosse, não seria coisa nova. Antigamente os que assistiam ao lado dos príncipes, chamavam-se laterones. E depois, corrompendo-se este vocábulo, como afirma Marco Varro, chamaram-se latrones. E que seria se assim, como se corrompeu o vocábulo, se corrompessem também os que o mesmo vocábulo significa? Mas eu nem digo nem cuido tal coisa. O que só digo e sei, por ser teologia certa, é que em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. — E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendem, e são, finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.
Ouvi a ameaça e sentença de Deus contra estes tais: o hebreu, e tudo é, porque há príncipes que correm com os ladrões e concorrem com eles. Correm com eles, porque os admitem à sua familiaridade e graça, e concorrem com eles, porque, dando-lhes autoridade e jurisdições, concorrem para o que eles furtam. E a maior circunstância desta gravíssima culpa consiste no ser verdade. Se estes ladrões foram ocultos, e o que corre e concorre com eles não os conhecera, alguma desculpa tinha; mas se eles são ladrões públicos e conhecidos, se roubam sem remorso e à cara descoberta, se todos os vêem roubar, e o mesmo que os consente e apóia o está vendo: Se verdade forem que desculpa pode ter diante de Deus e do mundo? (Sl. 49, 21): Cuidas tu, ó injusto — diz Deus — que hei de ser semelhante a ti — e que, assim como tu dissimulas com estes ladrões, hei eu de dissimular contigo? — Enganas-te: — Dessas mesmas ladroíces, que tu vês e consentes, hei de fazer um espelho em que te vejas — e quando vires que és tão réu de todos esses furtos, como os mesmos ladrões, porque os não impedes, e mais que os mesmos ladrões, porque tens obrigação jurada de os impedir, então conhecerás que tanto, e mais justamente que a eles, te condeno ao inferno. Assim o declara com última e temerosa sentença a paráfrase caldaica do mesmo texto: Neste mundo argüirei a tua consciência, como agora a estou argüindo, e no outro mundo condenarei a tua alma ao inferno, como se verá no dia do Juízo.
XII
Grande lástima será naquele dia, senhores, ver como os ladrões levam consigo muitos reis ao inferno; e para que esta sorte se troque em uns e outros, vejamos agora como os mesmos reis, se quiserem, podem levar consigo os ladrões ao Paraíso. Parecerá a alguém, pelo que fica dito, que será coisa muito dificultosa, e que se não pode conseguir sem grandes despesas, mas eu vos afirmo, e mostrarei brevemente, que é coisa muito fácil, e que sem nenhuma despesa de sua fazenda, antes com muitos aumentos dela, o podem fazer os reis. E de que modo? Com uma palavra, mas palavra de rei. Mandando que os mesmos ladrões, os quais não costumam restituir, restituam efetivamente tudo o que roubaram. Executando-o assim, salvar-se-ão os ladrões e salvar-se-ão os reis. Os ladrões salvar-se-ão, porque restituirão o que têm roubado, e os reis salvar-se-ão também, porque restituindo os ladrões, não terão eles obrigação de restituir. Pode haver ação mais justa, mais útil e mais necessária a todos? Só quem não tiver fé, nem consciência, nem juízo, o pode negar.

E porque os mesmos ladrões se não sintam de haverem de perder por este modo o fruto dos seus roubos, considerem que, ainda que sejam tão maus como o mau ladrão, não só deviam abraçar e desejar esta execução, mas pedi-la aos mesmos reis. O bom ladrão pediu a Cristo, como a rei, que se lembrasse dele no seu reino, e o mau ladrão, que lhe pediu?
(Lc. 23,39): Se sois o rei prometido, como crê meu companheiro, salvai-vos a vós e a nós. — Isto pediu o mau ladrão a Cristo, e o mesmo devem pedir todos os ladrões a seu rei, posto que sejam tão maus como o mau ladrão. Nem Vossa Majestade, Senhor, se pode salvar, nem nós nos podemos salvar sem restituir: nós não temos ânimo nem valor para fazer a restituição, como nenhum a faz, nem na vida, nem na morte; mande-a, pois, fazer executivamente Vossa Majestade, e, por este modo, posto que para nós seja violento, salvar-se-á Vossa Majestade a si, e mais a nós: Creio que nenhuma consciência haverá cristã, que não aprove este meio. E para que não fique em generalidade, que é o mesmo que no ar, desçamos à prática dele, e vejamos como se há de fazer. Queira Deus que se faça!
O que costumam furtar nestes ofícios e governos os ladrões de que falamos, ou é a fazenda real, ou a dos particulares, e uma e outra têm obrigação de restituir depois de roubada, não só os ladrões que a roubaram, senão também os reis, ou seja porque dissimularam e consentiram os furtos quando se faziam, ou somente — que isto basta — por serem sabedores deles depois de feitos. E aqui se deve advertir uma notável diferença — em que se não repara — entre a fazenda dos reis e a dos particulares. Os particulares, se lhes roubam a sua fazenda, não só não são obrigados à restituição, antes terão nisso grande merecimento, se o levarem com paciência, e podem perdoar o furto a quem os roubou. Os reis são de muito pior condição nesta parte, porque, depois de roubados, têm eles obrigação de restituir a própria fazenda roubada, nem a podem dimitir ou perdoar aos que a roubaram. A razão da diferença é porque a fazenda do particular é sua: a do rei não é sua, senão da República. E assim como o depositário, ou tutor, não pode deixar alienar a fazenda que lhe está encomendada e teria obrigação de a restituir,assim tem a mesma obrigação o rei, que é tutor e como depositário dos bens e erário da República, na qual seria obrigado a gerar novos tributos, se deixasse alienar ou perder as suas rendas ordinárias.
O modo pois com que as restituições da fazenda real se podem fazer facilmente, ensinou aos reis um monge, o qual, assim como soube furtar, soube também restituir. Refere o caso Mayolo, Crantzio e outros. Chamava-se o monge frei Teodorico, e porque era homem de grande inteligência , cometeu-lhe o imperador Carlos Quinto algumas negociações de importância, em que ele se aproveitou de maneira que competia em riquezas com os grandes senhores. Advertido o imperador, mandou-o chamar à sua presença, e disse-lhe que se preparasse para dar contas. Que faria o pobre, ou rico monge? Respondeu sem se assustar que já estava preparado, que naquele mesmo ponto as daria, e disse assim: — Eu, César, entrei no serviço de Vossa Majestade com este hábito, e dez ou doze tostões na bolsa, da esmola das minhas Missas; deixe-me Vossa Majestade o meu hábito e os meus tostões, e tudo o mais que possuo, mande-o Vossa Majestade receber, que é seu, e tenho dado contas. — Com tanta facilidade como isto fez a sua restituição o monge, e ele ficou guardando os seus votos, e o imperador a sua fazenda. Reis e príncipes mal servidos, se quereis salvar a alma e recuperar a fazenda, introduzi, sem exceção de pessoas, as restituições de frei Teodorico. Saiba-se com que entrou cada um; o de mais torne para donde saiu, e salvem-se todos.
XIII
A restituição que igualmente se deve fazer aos particulares parece que não pode ser tão pronta nem tão exata, porque se tomou a fazenda a muitos e a províncias inteiras. Mas como estes pescadores do alto usaram de redes varredouras, use-se também com eles das mesmas. Se trazem muito, como ordinariamente trazem, já se sabe que foi adquirido contra a lei de Deus, ou contra as leis e regimentos reais, e por qualquer destas cabeças, ou por ambas, injustamente. Assim se tiram da Índia quinhentos mil Reais, de Angola duzentos, do Brasil trezentos, e até do pobre Maranhão mais do que vale todo ele. E que se há de fazer desta fazenda? Aplicá-la o rei à sua alma e às dos que a roubaram, para que umas e outras se salvem. Dos governadores que mandava a diversas províncias o Imperador Maximino, se dizia com galante e bem apropriada semelhança, que eram esponjas. A traça ou astúcia com que usava destes instrumentos era toda encaminhada a fartar a sede da sua cobiça, porque eles, como esponjas, chupavam das províncias que governavam tudo quanto podiam, e o imperador, quando tornavam, espremia as esponjas, e tomava para o fisco real quanto tinham roubado, com que ele ficava rico, e eles castigados. Uma coisa fazia mal este imperador, outra bem, e faltava-lhe a melhor. Em mandar governadores às províncias homens que fossem esponjas fazia mal; em espremer as esponjas quando tornavam, e lhes confiscar o que traziam, fazia bem, e justamente; mas faltava-lhe a melhor, como injusto e tirano que era, porque tudo o que espremia das esponjas não o havia de tomar para si, senão restituí-lo às mesmas províncias donde se tinha roubado. Isto é o que são obrigados a fazer em consciência os reis que se desejam salvar, e não cuidar que satisfazem ao zelo e obrigação da justiça, com mandar prender em um castelo o que roubou a cidade, a província, o estado. Que importa que por alguns dias ou meses se lhe dê esta sombra de castigo, se passados eles se vai lograr do que trouxe roubado, e os que padeceram os danos não são restituídos.
Há nesta, que parece justiça, um engano gravíssimo, com que nem o castigado, nem o que castiga se livram da condenação eterna; e para que se entenda ou queira entender este engano, é necessário que se declare. Quem tomou o alheio fica sujeito a duas satisfações: à pena da lei e à restituição do que tomou. Na pena, pode dispensar o rei como legislador; na restituição não pode, porque é indispensável. E obra-se tanto pelo contrário, ainda quando se faz ou se cuida que se faz justiça, que só se executa a pena, ou alguma parte da pena, e a restituição não lembra, nem se faz dela caso. Acabemos com Santo Tomás. Põe o Santo doutor em questão: Se, para satisfazer à restituição, basta restituir outro tanto quanto foi o que se tomou? — E depois de resolver que basta, porque a restituição é ato de justiça, e a justiça consiste em igualdade, argumenta contra a mesma resolução, com a lei do capítulo vinte e dois do Êxodo, em que Deus mandava que quem furtasse um boi restituísse cinco; logo, ou não basta restituir tanto por tanto, senão muito mais do que se furtou; ou, se basta, como está resoluto, de que modo se há de entender esta lei? Há-se de entender, diz o santo, distinguindo na mesma lei duas partes: uma enquanto lei natural, pelo que pertence à restituição, e outra enquanto lei positiva, pelo que pertence à pena. A lei natural, para guardar a igualdade do dano, só manda que se restitua tanto por tanto; a lei positiva, para castigar o crime do furto, acrescentou em pena mais quatro anos, e por isso manda pagar cinco por um. Há-se porém de advertir, acrescenta o santo Doutor, que entre a restituição e a pena há uma grande diferença, porque à satisfação da pena não está obrigado o criminoso antes da sentença, porém à restituição do que roubou, ainda que o não sentenciem nem obriguem, sempre está obrigado.
Daqui se vê claramente o manifesto engano ainda dessa pouca justiça, que poucas vezes se usa. Prende-se o que roubou, e mete-se em livramento. Mas que se segue daí? O preso, tanto que se livrou da pena do crime, fica muito contente; o rei cuida que satisfez à obrigação da justiça, e ainda se não tem feito nada, porque ambos ficam obrigados à inteira restituição dos mesmos roubos, sob pena de se não poderem salvar. O réu porque não restitui, e o rei porque o não faz restituir. Tire, pois, o rei executivamente a fazenda a todos os que a roubaram, e faça as restituições por si mesmo, pois eles as não fazem, nem hão de fazer, e deste modo — que não há, nem pode haver outro — em vez de os ladrões levarem os reis ao inferno, como fazem, os reis levarão os ladrões ao Paraíso, como fez Cristo: Hoje estarás comigo no paraiso .
XIV
Tenho acabado, senhores, o meu discurso, e parece-me que demonstrado o que prometi, de que não estou arrependido. Se a alguém pareceu que me atrevi a dizer o que fora mais reverência calar, respondo com Santo Hilário: O que se não pode calar com boa consciência, ainda que seja com repugnância, é força que se diga. — Ouvinte coroado era aquele a quem o Batista disse e coroado também, posto que não ouvinte, aquele a quem Cristo mandou dizer. Assim o fez animosamente Jeremias, porque era mandado por pregador Régio . E se Isaías o tivera feito assim, não se arrependera depois, quando disse: Os médicos dos reis com tanta e maior liberdade lhes devem receitar a eles o que importa à sua saúde e vida, como aos que curam nos hospitais. Nos particulares, cura-se um homem; nos reis, toda a República.
Resumindo pois o que tenho dito, nem os reis, nem os ladrões, nem os roubados se podem molestar da doutrina que preguei, porque a todos está bem. Está bem aos roubados, porque ficarão restituídos do que tinham perdido; está bem aos reis, porque sem perda, antes com aumento da sua fazenda, desencarregarão suas almas. E, finalmente, os mesmos ladrões, que parecem os mais prejudicados, são os que mais interessam. Ou roubaram com tenção de restituir, ou não: se com tenção de restituir, isso é o que eu lhes digo, e que o façam a tempo. Se o fizeram sem essa intenção, fizeram logo conta de ir ao inferno, e não podem estar tão cegos que não tenham por melhor ir ao Paraíso. Só lhes pode fazer medo haverem de ser despojados do que despojaram aos outros, mas, assim como estes tiveram paciência por força, tenham-na eles com merecimento. Se os esmoleres compram o céu com o próprio, por que se não contentarão os ladrões de o comprar com o alheio? A fazenda alheia e a própria toda se alija ao mar, sem dor, no tempo da tempestade. E quem há que, salvando-se do naufrágio a nado e despido, não mande pintar a sua boa fortuna, e a dedique aos altares com ação de graças? Toda a sua fazenda dará o homem de boa vontade por salvar a vida, diz o Espírito Santo, e quanto de melhor vontade deve dar a fazenda, que não é sua, por salvar, não a vida temporal, senão a eterna? O que está sentenciado à morte e à fogueira, não se teria por muito venturoso, se lhe aceitassem por partido a confiscação só dos bens? Considere-se cada um na hora da morte, e com o fogo do inferno à vista, e verá se é bom partido o que lhe persuado. Se as vossas mãos e os vossos pés são causa de vossa condenação, cortai-os, e se os vossos olhos, arrancai-os, diz Cristo, porque melhor vos está ir ao Paraíso manco, aleijado e cego, que com todos os membros inteiros ao inferno. É isto verdade, ou não? Acabemos de ter fé, acabemos de crer que há inferno, acabemos de entender que sem restituir ninguém se pode salvar. Vede, vede, ainda humanamente, o que perdeis, e por quê. Nesta restituição, ou forçosa, ou forçada, que não quereis fazer, que é o que dais e o que deixais? O que dais, é o que não tínheis; o que deixais é o que não podeis levar convosco, e por isso vos perdeis. Nu entrei neste mundo, e nu hei de sair dele, dizia Jó, e assim saíram o bom e o mau ladrão. Pois, se assim há de ser, queirais ou não queirais, despido por despido, não é melhor ir com o bom ladrão ao Paraíso, que com o mau ao inferno?
Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão, para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impidam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam, ao inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como vós fizestes hoje:
Hoje estarás comigo no paraíso .

(1) Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino: Hoje estarás comigo no Paraíso (Lc. 23,42s).

(2) Zaqueu era um dos principais entre os publicanos, e pessoa rica (Lc. 19,2).

(3) Zaqueu, desce depressa, porque importa que eu fique hoje em tua casa (Lc. 19,5).

(4) Recebeu-o alegremente (Lc. 19,6).

(5) Eu estou para dar aos pobres a metade de meus bens (Lc. 19,8).

(6) Desce depressa (Lc. 19,5).

(7) Naquilo em que eu tiver defraudado a alguém, pagar-lho-ei quadruplicado (Lc. 19,8).

(8) Hoje entrou a salvação nesta casa (Lc. 19,9).

(9) Os seus príncipes eram no meio dela como uns lobos que arrebatam a sua presa (Ez. 22,27).

(10) Não é grande furta quando algum furtar porque furtar para saciar a sua esfaimada alma (Prov. 6,30).

(11) Quem, podendo, não impede o pecado, ordena-o.

(12) Paguei então o que não tinha roubado (Sl. 68,5).

(13) Façamos o homem à nossa imagem e semalhança, o qual presida (Gên. 1,26).

(14) O que não entra pela porta, esse é ladrão e roubador (Jo. 10,1).

(15) Entrarão pelas janelas como um ladrão (Jl. 2,9)

(16) Se o pai de famílias soubesse a hora em que viria o ladrão, não deixaria minar a sua casa (Lc. 12,39).

(17) Caiu-nos do céu um terceiro Catão (Juvenal, Sátira II, v. 40).

(18) Como um ladrão de noite (1 Tes. 5,2).

(19) Furtar.

(20) Despachou o rei Nabucodonosor correios para que se ajustem os sátrapas, os magistrados e os juízes (Dan. 3,2).

(21) São dignos de morte, não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem (Rom. 1,32).

(22) Somente, porém, quando obriga a alguém ex officio, como aos príncipes da terra.

(23) Pois já não poderais ser meu feitor (Lc. 16,2).

(24) E este foi acusado diante dele (Lc. 16,1).

(25) E o amo louvou este feitor iníquo, por haver obrado como homem de juízo (Lc. 16,8).

(26) Como quem havia dissipado os seus bens (Lc. 16,1).

(27) Em qualquer dia que comeres dele, morrerás de morte (Gên. 2,17).

(28) Para que não suceda que ele lance a sua mão, e tome também da árvore da vida (Gên. 3,22).

(29) Está bem, servo bom: porque foste fiel no pouco, serás governador de dez cidades (Lc. 19,17).

(30) Sê tu também governador de cinco cidades (Lc. 19,19).

(31) Tirai-lhe o marco de prata (Lc. 19,24).

(32) Se vias um bom ladrão, corrias com ele (Sl. 49,18).

(33) Não te é lícito (Mc. 6,18).

(34) Dizei a esse raposo (Lc. 13,32).

(35) Aos reis de Judá e aos seus príncipes (Jer. 1,18).

(36) Ai de mim, porque me calei (Is. 6,5).
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Paz de Cristo , irmãos .